REI LEAR
William Shakespeare
NDICE
ATO I
Cena I
Cena II
Cena III
Cena IV
Cena V
ATO II
Cena I
Cena II
Cena III
Cena IV
ATO III 
Cena I 
Cena II 
Cena III 
Cena IV 
Cena V 
Cena VI 
Cena VII 
ATO IV 
Cena I 
Cena II 
Cena III 
Cena IV 
Cena V 
Cena VI
Cena VII 
ATO V 
Cena I 
Cena II 
Cena III 
Personagens 
LEAR, rei da Bretanha. 
O rei da Frana. 
O duque de Burgndia. 
O duque de Cornualha. 
O duque de Albnia. 
O conde de Kent. 
O conde de Gloster. 
EDGAR, filho de Gloster. 
EDMUNDO, filho bastardo de Gloster. 
CURAN, um corteso.
OSVALDO, intendente de Goneril.
Um velho, caseiro de Gloster. 
Um mdico. 
O bobo. 
Um oficial, empregado por Edmundo. 
Um gentil-homem, ligado a Cordlia. 
Um arauto. 
Criados de Cornualha. 
GONERIL, filha de Lear 
REGANE, filha de Lear 
CORDLIA, filha de Lear 
Cavaleiros do sqito de Lear, oficiais, mensageiros, soldados e criados. 
ATO I 
Cena I 
Salo nobre do palcio do Rei Lear. Entram Kent, Gloster e Edmundo. 
KENT - Sempre pensei que o rei fosse mais afeioado ao duque de Albnia do que ao de Cornualha. 
GLOSTER - Era o que tambm me parecia; mas agora, na diviso do reino, no se pode saber qual dos 
dois duques ele aprecia mais, porque as partes foram pesadas com tal eqidade, que a mais impertinente
curiosidade no saber decidir-se por nenhuma delas. 
KENT - Este rapaz  vosso filho, milorde? 
GLOSTER - Sua educao, senhor, esteve a meu cargo. Tantas vezes corei de confess-lo, que 
presentemente j me encontro calejado. 
KENT - No posso compreender-vos. 
GLOSTER - Mas a me deste mancebo o compreendia perfeitamente, senhor; tanto assim, que ficou com 
o ventre arredondado com um filho que arranjou para seu bero, antes de conseguir um marido para o seu 
leito. Percebeis alguma falta nisso? 
KENT - No posso desejar que a falta no houvesse sido cometida,  vista da graa de suas 
conseqncias. 
GLOSTER - Mas possuo um filho legtimo, senhor, coisa de um ano mais velho do que este, que nem 
por isso tenho em mais alta estima.  verdade que este peralta veio ao mundo com certo descoco, antes 
de ser chamado; mas tambm  verdade que sua me era muito linda. Foi gerado na folia, sendo me 
agora preciso reconhecer o bastardo. Conheceis este gentil-homem, Edmundo? 
EDMUNDO - No, milorde. 
GLOSTER -  o milorde de Kent; de agora em diante lembra-te dele como de honrado amigo meu. 
EDMUNDO - Ao dispor de Vossa Senhoria. 
KENT - Desejo amar-vos e peo que me ensejeis oportunidades de conhecer-vos mais de perto. 
EDMUNDO - Esforar-me-ei por merec-lo, senhor. 
GLOSTER - Esteve fora nove anos e precisar sair de novo. O rei vem vindo. 
(Fanfarra. Entram Lear, Cornualha, Albnia, Goneril, Regane, Cordlia e sqito.) 
LEAR - Gloster, fazei entrar na sala os nobres da Frana e da Burgndia. 
GLOSTER - Neste instante, meu soberano. 
(Saem Gloster e Edmundo.) 
LEAR - Enquanto isso, mostrar pretendo nossos desgnios mais recnditos. Um mapa! Ficai sabendo, 
assim, que dividimos nosso reino em trs partes, sendo nossa firme inteno livrar-nos, na velhice, dos 
cuidados, bem como dos negcios, para confi-los a mais jovens foras, e, assim, nos arrastarmos para a 
morte, de qualquer fardo isento. Nosso filho de Cornualha, assim como vs, Albnia, filho tambm no 
menos caro, temos o propsito certo, neste instante, de declarar publicamente o dote de nossas filhas, 
para que a discrdia futura fique obviada desde agora. Os prncipes da Frana e da Burgndia, grandes 
rivais no amor de nossa filha mais nova, em nossa corte j fizeram sua parada longa e apaixonada. Ora 
aguardam resposta. Minhas filhas - j que neste momento nos despimos do governo, no s, dos 
territrios e cuidados do Estado - ora dizei-me qual de vs mais amor nos tem deveras, porque alargar 
possamos nossa ddiva onde contende a natureza e o mrito. Fale primeiro Goneril, a nossa filha mais 
velha. 
GONERIL - Senhor, amo-vos mais do que as palavras podero exprimir, mais ternamente do que a viso,
o espao, a liberdade, muito mais do que tudo que  prezado, raro ou valioso, tanto quanto a vida com 
sade, beleza, honras e graa, como jamais amou filha nenhuma ou pai se viu amado;  amor que torna 
pobre o alento e o discurso balbuciante. Amo-vos para alm de todo extremo. 
CORDLIA ( parte) - Cordlia que far? Ama e se cala. 
LEAR - Todo este trecho aqui, de uma a outra linha, com suas matas e campinas ricas, com rios 
caudalosos e seus prados de larga bordadura, te pertencem. De tua prole e de Albnia, como posse 
perptua vai ficar. Que diz agora nossa segunda filha, a queridssima Regane, esposa de Cornualha? Fala. 
REGANE - De igual metal que minha irm sou feita e pelo preo dela me avalio. No imo peito descubro 
que ela soube dar expresso ao meu amor sincero. Mas ficou muito aqum, pois inimiga me declaro de 
quantas alegrias se contenham na mui preciosa esfera dos sentidos to-s. Achei minha nica felicidade 
na afeio de Vossa mui querida Grandeza. 
CORDLIA ( parte) - Ento, coitada de Cordlia! Contudo, nem por isso, pois estou certa de que meu 
afeto mais rico  do que a lngua. 
LEAR - Que para ti e os teus fique de herana permanente este tero avantajado do nosso belo reino, em 
rendas, graas e extenso no menor em nenhum ponto do que o que em sorte coube a Goneril. Nossa 
alegria, agora, conquanto a ltima, no a menor, e cujo afeto jovem os vinhedos da Frana e o branco 
leite da Burgndia disputam: que podeis dizer-nos para um tero mais opimo virdes a obter do que os das 
vossas manas? Falai. 
CORDLIA - Meu senhor, nada. 
LEAR - Nada? 
CORDLIA - Nada. 
LEAR - De nada sair nada. Novamente dizei alguma coisa. 
CORDLIA - Oh desditosa! Trazer no posso o corao  boca. Amo a Vossa Grandeza como o dever 
me impe, nem mais nem menos. 
LEAR - Que  isso, Cordlia? Concertai um pouco vossas palavras, para no deitardes a perder vossa 
dita. 
CORDLIA - Meu bondoso senhor, vs me gerastes, educastes e me amastes, pagando eu todos esses 
benefcios qual fora de justia: com obedincia e amor vos honro sempre extremamente. Por que tm 
maridos minhas irms, se dizem que vos amam sobre todas as coisas? Se algum dia vier a casar, h de 
seguir o dono do meu dever apenas a metade de meu amor, metade dos cuidados e das obrigaes. 
Certeza  nunca vir a casar-me como as duas manas, para amar a meu pai por esse modo. LEAR - Do 
corao te veio o que disseste? 
CORDLIA - Sim, meu senhor. 
LEAR - To jovem e to spera? 
CORDLIA - To jovem, meu senhor, e verdadeira. 
LEAR - Ento vai ser teu dote s a tua veracidade. Pois pela sagrada irradiao do sol, pelos mistrios de
Hcate e, assim, da noite, pelas grandes operaes dos orbes que nos fazem viver e definhar: desde este 
instante me desligo dos laos consanguneos, preocupaes de pai e parentesco, passando a te considerar 
como uma pessoa estranha a mim e a meu afeto, de agora para sempre. O cita brbaro ou selvagem que 
faz da prole pbulo para o apetite, h de ser mais vizinho do meu seio, acolhido e consolado, do que tu, 
que no s j filha minha. 
KENT - Meu senhor... 
LEAR - Kent, silncio; no te metas entre o drago e sua grande clera. Predileo lhe tinha e pensei 
sempre que haveria de achar grato repouso em seus carinhos. Foge-me da vista! To certo como eu ter 
paz no sepulcro, o corao de pai lhe tiro agora. Chamai Frana! Que  que ainda se mexe? Chamai 
Burgndia aqui! Cornualha e Albnia, acrescentai mais este dote aos outros de minhas duas filhas. Que 
se case com ela o orgulho, a que franqueza chama. Juntamente comigo vos invisto no meu poder, minhas 
prerrogativas e em todas as extensas dignidades que  majestade se unem. Ns, seguindo nisso o curso 
mensal e reservando cem cavaleiros, cujo encargo fica por vossa conta, nossa casa havemos de na vossa 
fazer por modo alterno. De rei, o nome apenas reteremos, com suas dignidades; mas o mando, a 
execuo das leis, as rendas, tudo, caros filhos,  vosso. E como certo penhor do que ora afirmo, esta 
coroa dividirei entre ambos. 
KENT - Real Lear, a quem como meu rei acatei sempre, amei como a meu pai, acompanhei como a 
senhor e a quem nas minhas preces tinha como padroeiro... 
LEAR - O arco est armado; sai da frente da seta! 
KENT - No; dispara-a, embora a farpa o corao me atinja. Descorts ser Kent, se  louco Lear. Que 
ests fazendo, velho? Acaso pensas que o dever tenha medo de falar, quando o poder se abaixa at  
lisonja? A honra obriga  franqueza, quando tomba na loucura, assim tanto, a majestade. Anula o teu 
decreto, e recorrendo aos teus mais ponderosos argumentos, reprime logo essa medonha pressa. Minha 
vida em penhor do que te afirmo; afeio inferior no te dedica tua terceira filha, nem tampouco sentiro 
menos as pessoas cuja voz grave no ressoa no vazio. 
LEAR - Por tua vida, Kent, nem mais um pio! 
KENT - Penhor a vida me foi sempre, para contra os teus inimigos arrisc-la. Perd-la no receio, 
quando o exige tua prpria salvao. 
LEAR - Fora da minha vista! 
KENT - V melhor, Lear, e ora consente que a mira de teus olhos eu me torne. 
LEAR - Agora, por Apolo... 
KENT - Por Apolo, agora em vo juraste por teus deuses. 
LEAR - Oh vassalo! Insolente! 
(Leva a mo  espada.) 
ALBNIA E CORNUALHA - No; detende-vos, caro senhor. 
KENT - Manda matar teu mdico e  impura doena entrega os honorrios! Revoga o teu decreto; do 
contrrio, enquanto alento me restar no peito, direi que ests errado.
LEAR - Ouve-me, biltre! Por teu dever de vassalagem, ouve-me! J que tentaste provocar a quebra de 
nosso voto - o que jamais fizemos - e com teimoso orgulho te meteste entre nossa sentena e nosso trono 
- o que no pode suportar a nossa natureza, nem menos nosso posto - de p nosso poder, toma tua paga: 
cinco dias te damos, porque possas contra os males do mundo premunir-te; ao sexto voltars o dorso 
odioso a todo o nosso reino; e se no dcimo esse corpo banido for achado dentro de nossas terras, esse 
instante ser tua morte. J daqui! Por Jpiter, no haver revogao agora. 
KENT - Adeus, rei. Declarar quero a verdade: o exlio  aqui, e longe, a liberdade. 
(A Cordlia.) 
Possam os deuses te amparar, menina, cujo pensar com o bom discurso afina. 
(A Regane e Gonerl.) 
Que por bons atos sejam confirmados vossos largos discursos e empolados. - Kent, assim, se despede dos 
presentes e a novas terras leva os ps dolentes. 
(Sai.) 
(Fanfarra. Volta Gloster com Frana, Burgndia e pessoas do sqito.) 
GLOSTER - Senhor, Frana e Burgndia esto presentes. 
LEAR - Milorde de Burgndia, primeiramente a vs nos dirigimos, que sois rival, com este soberano, na 
corte  nossa filha. Qual o mnimo que exigis como dote e em cuja falta desistis do pedido? 
BURGNDIA - Muito nobre majestade, no peo nada acima do que j ofereceu Vossa Grandeza, que 
menos no dar. 
LEAR - Nobre Burgndia, quando cara nos era, ns a tnhamos nesse preo; mas ora baixou muito. 
Senhor, ali est ela. Se algum trao dessa coisinha de nenhum realce ou at mesmo ela toda, redobrada de 
nosso desfavor, sem mais acrscimo, pode do agrado ser de Vossa Graa: ela aqui est; pertence-vos. 
BURGNDIA - Ignoro que responder. 
LEAR - Quereis, com as faltas todas que lhe so prprias, sem nenhum amigo, adotada por nosso recente 
dio, com toda nossa maldio por dote, expulsada por nosso juramento, lev-la ou recus-la? 
BURGNDIA - Real senhor, perdo; mas nessas condies,  claro, ningum faz uma escolha. 
LEAR - Ento deixai-a, senhor; porque vos assevero, em nome do poder que me criou, que toda a sua 
fortuna  o que vos disse. (A Frana.) Vs, potente soberano, de vosso amor no quero to longe me 
afastar, que almeje ver-vos unido a quem odeio. Assim, suplico-vos desviar vossa afeio para um objeto 
mais digno do que a msera criatura que a natureza quase se envergonha de declarar por sua. 
FRANA -  muito estranho que aquela que, at h pouco, era a mais rara jia de vosso afeto, o tema 
excelso de vossos elogios, vosso blsamo na velhice, a melhor, a mais querida, pudesse cometer assim, 
de pronto, um crime to monstruoso que desmanche tantas pregas da graa. Com certeza mui contrrio  
natura foi seu crime, e muito a deturpou, se vosso afeto to notrio no  o que antes era. Acreditar tal 
coisa a seu respeito, s com o auxlio da f, pois, sem milagre, a isso a razo jamais me levaria. 
CORDLIA - Suplico entanto a Vossa Majestade - pois careo dessa arte lisa e untuosa de falar em 
contrrio ao prprio intento, pois o que fazer quero j realizo, mesmo antes de falar - que deixeis claro 
no ter sido nenhum vcio infamante, velhacaria alguma, ato impudico, nem qualquer passo menos
decoroso que de vosso favor e vossa graa me privou neste instante, mas apenas a carncia daquilo que 
me deixa mais rica ainda: o olhar adulador e lngua que no ter muito me alegra muito embora essa falta 
seja a causa de me fazer perder vossa amizade. 
LEAR - Melhor te fora nunca ter nascido, do que deixares de agradar-me agora. 
FRANA - Ento, foi isso apenas? Uma certa lentido natural, que, muitas vezes, deixa de relatar a 
prpria histria do que fazer pretende? Que dizeis, milorde de Burgndia, desta noiva? O amor no  
amor, quando se mescla de consideraes que muito aberram da meta principal. Ficais com ela? 
BURGNDIA - Dai-lhe, real Lear, unicamente a parte que haveis prometido, e, neste instante, tomo 
Cordlia pela mo e a fao Duqueza de Burgndia. 
LEAR - Nada; sou firme; fiz um juramento. 
BURGNDIA - Muito me pesa, ento, que aps haverdes perdido o pai, tambm percais o esposo. 
CORDLIA - Seja a paz com Burgndia! J que havia em seu amor intuitos de riquezas, no serei sua 
esposa. 
FRANA - Linda Cordlia, pobre, ainda s mais rica; mais procurada, ainda, no abandono, e mais 
amada, quando desprezada: de ti, dessas virtudes, apodero-me neste momento. Seja, assim, legtimo 
apanhar o que foi jogado fora. Que estranho,  deuses! que um glacial desprezo o respeito me inflame e 
deixe preso! Deserdando tua filha,  rei! deste ansa para rainha eu a fazer da Frana. Nenhum dos duques 
da Burgndia aquosa a noiva minha levar preciosa. Cordlia, adeus lhes dize, cruis embora; perdes 
aqui, para ganhar l fora. 
LEAR - Frana, leva-a contigo;  tua; ns tal filha j no temos, no, e aps o que houve ela perdeu, por 
mais que faa, nosso amor, nossa bno, nossa graa. Vamos, nobre Burgndia. 
(Fanfarras. Saem Lear, Burgndia, Cornualha, Albnia, Gloster e sqito.) 
FRANA - Dizei adeus agora a vossas manas. 
CORDLIA - Jias de nosso pai, com olhos midos Cordlia ora vos deixa. Eu vos conheo, mas como 
irm no quero dar o nome verdadeiro de vossas faltas todas. Cuidai de nosso pai; entrego-o a vossos 
peitos que os prprios mritos proclamam. No entanto, ai! se em sua graa eu me encontrasse, talvez 
melhor asilo lhe mostrasse. Assim, adeus para ambas. 
REGANE - No queirais ensinar nossos deveres. 
GONERIL - Procurai agradar vosso marido que como esmola vos pegou da sorte. Revelastes carter 
obstinado; digna, portanto, sois do vosso fado. 
CORDLIA - O tempo h de mostrar quem tem malcia, que a vergonha  o castigo da estultcia. Passai 
bem. 
FRANA - Vamos, linda Cordlia. 
(Saem Frana e Cordlia.) 
GONERIL - Mana, no  pouco o que tenho a dizer sobre um assunto que nos toca muito de perto. Creio 
que nosso pai vai partir esta noite.
REGANE - Isso  certeza, e em vossa companhia. No prximo ms ficar conosco. 
GONERIL - Vistes como sua velhice  caprichosa; no  das menos valiosas a observao que tivemos 
oportunidade de fazer; sempre revelou muito mais afeio para nossa irm, transparecendo agora 
claramente a falta de senso com que acaba de expuls-la. 
REGANE - E a fraqueza da idade, sendo certo que ele sempre se conheceu mal. 
GONERIL - At mesmo na melhor idade e de mais vigor, costumava revelar precipitao. Por isso, 
preparemo-nos para receber de sua velhice no somente os defeitos enraizados de longa data, como 
tambm as rabugices inconvenientes que trazem consigo os anos achacosos e irritveis. REGANE - 
Teremos de assistir ainda a muitas exploses sbitas, como essa de que resultou o banimento de Kent. 
GONERIL - Ainda tero de realizar-se as cerimnias complementares da despedida entre ele e Frana. 
Unamo-nos,  o que vos peo; se nosso pai conservar o poder com semelhante disposio, essa ltima 
abdicao de sua vontade s nos poder ser prejudicial. 
REGANE - Havemos de refletir melhor sobre isso. 
GONERIL - Precisaremos fazer qualquer coisa, enquanto o assunto est quente. 
(Saem.) 
Cena II 
Sala no castelo do conde de Gloster. Entra Edmundo com uma carta. 
EDMUNDO - S minha deusa agora, natureza! A tuas leis empenho meus servios. Porque terei de me 
curvar  peste do costume e deixar que a impertinncia das naes me despoje, to-somente porque nasci 
algumas doze luas, ou catorze, depois de qualquer mano? Por que bastardo? Por que mal nascido, se 
minhas propores so to bem feitas, a alma to franca e a compostura toda to certa como a de 
qualquer rebento de uma senhora honesta? Por que causa, pois, nos estigmatizam de baixeza, bastardo, 
baixo, baixo?... Por que baixos todos ns que no furto deleitoso da natureza recebemos partes mais 
ajustadas e mais alto esprito do que acontece nos cansados leitos, antiquados e inspidos, s feitos para 
criar uma chusma de casquilhos, entre o sono e a viglia concebidos? Assim, Edgar legtimo, preciso 
ficar com vossas terras. Tem o afeto de nosso pai no s o bastardo Edmundo, como o filho legtimo. 
"Legtimo!" bela expresso! Espero, meu legtimo, que se esta carta for bem despachada e meu plano der 
certo, o baixo Edmundo vai passar o legtimo. Prospero... Creso... Amparai,  deuses! os bastardos. 
(Entra Gloster.) 
GLOSTER - Banido Kent assim! Frana, colrico, se despediu, e o rei partiu  noite! Resignou ao poder, 
tendo ficado com penso reduzida! E tanta coisa em menos de um segundo! Ol, Edmundo, que 
novidades h? 
EDMUNDO (escondendo a carta) - No h novidades, se no for do desagrado de Vossa Senhoria. 
GLOSTER - Por que escondeis com tanta precipitao essa carta? 
EDMUNDO - No sei de nenhuma novidade, senhor. 
GLOSTER - Que papel estveis lendo?
EDMUNDO - Nada, milorde. 
GLOSTER - Nada? Que necessidade havia, ento, de enfi-lo to depressa no bolso? O que em si mesmo 
 nada, no tem necessidade de ser escondido desse modo. Deixai-me ver! Vamos! Se for mesmo nada, 
no precisarei de culos. 
EDMUNDO - Peo-vos, senhor, que me perdoeis;  uma carta de meu irmo, que eu ainda no li at ao 
fim; mas pelo que pude ver assim por cima, penso que seu contedo  imprprio para vossa vista. 
GLOSTER - Dai-me essa carta, senhor! 
EDMUNDO - Farei mal tanto em recus-la com em dar-vo-la. Seu contedo, pelo que pude alcanar,  
censurvel. 
GLOSTER - Quero v-la; quero v-la. 
EDMUNDO - Quero crer, como justificativa de meu irmo, que ele escreveu apenas com o intuito de 
provar ou confirmar minha virtude. 
GLOSTER - "Nossas instituies e o respeito  velhice tornam o mundo amargo para os nossos melhores 
anos, privam-nos dos bens at que nossa caduquice no se possa aproveitar deles. Comeo a ver uma 
escravido intil e presunosa na opresso da tirania envelhecida, que governa no porque tenha poder, 
mas por ser tolerada. Procurai-me, para que eu possa expandir-me a esse respeito. Se nosso pai dormisse 
at que eu o despertasse, gozareis para sempre da metade das rendas dele e sereis o bem-amado de 
vosso irmo Edgar." - Hum! Conspirao! "Se dormisse at que eu o despertasse, gozareis da metade 
das rendas dele." - Meu filho Edgar teve mo para escrever isto? corao e crebro para conceb-lo? 
Como te veio isto ter s mos? Quem te trouxe esta carta? 
EDMUNDO - No foi trazida, senhor, e nisso  que consiste toda a treta; foi jogada pela janela de meu 
quarto. 
GLOSTER - Reconheceis a letra de vosso irmo? 
EDMUNDO - Se o assunto fosse bom, milorde, eu iria jurar que a letra  dele; mas quando o considero 
mais de perto, quero crer que no seja. 
GLOSTER -  dele, sim. 
EDMUNDO - A mo  dele, milorde; mas espero que o corao no esteja no contedo. 
GLOSTER - Antes, ele nunca vos sondou a esse respeito? 
EDMUNDO - Nunca, milorde; mas por vrias vezes j o ouvi asseverar que quando os filhos atingem a 
idade adulta e os pais comeam a declinar, o pai deveria tornar-se como que pupilo do filho, ficando seus 
bens sob a direo deste. 
GLOSTER - Oh celerado! celerado! A mesma coisa que ele diz na carta! Celerado execrvel! Celerado 
desnaturado, odioso, bestial! Pior do que bestial! Vai busc-lo imediatamente. Vou prend-lo. 
Abominvel celerado! Onde est ele? 
EDMUNDO - Ao certo no sei, milorde. Se concordardes em sustar vossa indignao contra meu irmo,
at que possais tirar dele melhores testemunhos de suas intenes, seguireis por um caminho certo; ao 
passo que se procederdes com violncia e vos enganardes quanto aos seus planos, abrireis em vossa 
honra uma grande brecha e destruireis o prprio corao de sua obedincia. Atrevo-me a apostar a vida 
em como ele escreveu isso tudo apenas para pr  prova a afeio que eu voto a Vossa Honra, sem 
qualquer inteno maldosa. 
GLOSTER - Pensais desse modo? 
EDMUNDO - Se Vossa Honra concordar, eu vos colocarei em um lugar de onde possais ouvir-nos 
conversar a esse respeito, vindo desta arte a convencer-vos pelo prprio testemunho dos ouvidos, e isso 
sem delongas, ainda esta tarde. 
GLOSTER - No  possvel que ele seja to monstruoso... 
EDMUNDO - De forma alguma; tenho certeza. 
GLOSTER - ... com relao a seu prprio pai, que lhe dedica amor to terno e desinteressado... Cu e 
terra! Edmundo, ide procur-lo; sondai-o, por obsquio; arranjai tudo de acordo com vossa sabedoria. 
Daria todos os meus haveres para poder alcanar plena certeza a esse respeito. 
EDMUNDO - Vou procur-lo, senhor, neste momento; farei tudo do melhor modo possvel e vos porei a 
par do que houver. 
GLOSTER - Esses ltimos eclipses do sol e da lua no nos anunciam nada bom. Muito embora a cincia 
da natureza possa explic-los desta ou daquela maneira, a prpria natureza se sente chicoteada pelos 
efeitos que se lhes seguem. O amor esfria, a amizade desaparece, os irmos se desavm; nas cidades, 
tumultos; nos campos, discrdias; nos palcios, traies, rompendo-se os laos entre filhos e pais. Esse 
meu filho desnaturado confirma aqueles sinais:  filho contra pai. O rei se afasta da trilha da natureza:  
pai contra filho. J vimos o melhor de nosso tempo: maquinaes, imposturas, traies e toda sorte de 
desordens ruinosas nos acompanham sem sossego at  sepultura. Vai buscar-me esse celerado, 
Edmundo; nada ters a perder. Procede com cautela. E o nobre e magnnimo Kent, banido! Seu crime, a 
honestidade!  muito estranho! 
(Sai.) 
EDMUNDO - Essa  a maravilhosa tolice do mundo: quando as coisas no nos correm bem - muitas 
vezes por culpa de nossos prprios excessos - pomos a culpa de nossos desastres no sol, na lua e nas 
estrelas, como se fssemos celerados por necessidade, tolos por compulso celeste, velhacos, ladres e 
traidores pelo predomnio das esferas; bbedos, mentirosos e adlteros, pela obedincia forosa a 
influncias planetrias, sendo toda nossa ruindade atribuda a influncia divina... tima escapatria para 
o homem, esse mestre da devassido, responsabilizar as estrelas por sua natureza de bode. Meu pai se 
juntou a minha me sob a cauda do Drago e minha natividade se deu sob a Grande Ursa: de onde se 
segue que eu tenho de ser violento e lascivo. Pelo p de Deus! Eu teria sido o que sou, ainda que a mais 
virginal estrela do firmamento houvesse piscado por ocasio de minha bastardizao. Edgar... 
(Entra Edgar.) 
Pronto! Ei-lo que chega, tal qual a catstrofe na velha comdia. Minha deixa  "Melancolia prfida", com 
um suspiro como os de Tom de Bedlam. Oh! Esses eclipses pressagiam as desordens que vemos. F, sol, 
l, mi! 
EDGAR - Ol, mano Edmundo! Que graves meditaes so essas?
EDMUNDO - Estava pensando, mano, numa predio que li num dia destes, sobre o que h de seguir-se 
a estes eclipses. 
EDGAR - Preocupai-vos com essas coisas? 
EDMUNDO - Posso afirmar-vos que por infelicidade se realizam os efeitos anunciados, tal como: 
sentimentos contra as leis da natureza entre pais e filhos; mortes, fome, dissoluo de amizades antigas, 
divises no Estado, ameaas e maldies contra os reis e os nobres, suspeitas injustificadas, proscrio de 
amigos, disperso de coortes, infraes conjugais e no sei o que mais. 
EDGAR - H quanto tempo sois sectrio da astronomia? 
EDMUNDO - Vamos, vamos... Quando vistes meu pai pela ltima vez? 
EDGAR - Ontem  noite. 
EDMUNDO - Falastes-lhe? 
EDGAR - Sim; duas horas seguidas. 
EDMUNDO - Despedistes-vos em bons termos? No observastes nele nenhum sinal de 
descontentamento, quer na fisionomia, quer nas expresses? 
EDGAR - Absolutamente nenhum. 
EDMUNDO - Refleti melhor sobre o que podereis ter feito para ofend-lo, e fazei-me neste ponto a 
vontade, evitando sua presena, at que o tempo se incumba de esfriar o ardor de seu desagrado, que 
neste momento de tal modo se mostra revolto, que dificilmente poderia acalmar-se com maltratar vossa 
pessoa. 
EDGAR - Algum celerado me fez isso. 
EDMUNDO -  o que eu receio. Peo que o eviteis com pacincia, at que se torne mais vagaroso o 
mpeto de sua clera. E, como disse, retirai-vos para os meus aposentos, onde disporei as coisas de modo 
que possais ouvir milorde conversar. Ide logo, por obsquio. Se vos arriscardes a sair, que seja armado. 
EDGAR - Armado, irmo? 
EDMUNDO - Mano, eu vos aconselho para vosso bem; sa armado. No quero ser homem de bem, se 
em tudo isso houver algo de bom para vs. Contei-vos o que vi e ouvi, mas muito por cima, sem vos 
apresentar a imagem horrorosa da coisa. Peo-vos, ide logo. 
EDGAR - Terei logo notcias vossas? 
EDMUNDO - Neste negcio estarei a vosso inteiro dispor. 
(Sai Edgar.) 
Um pai simplrio e um mano em tudo nobre, que, pela prpria condio, to longe se acha de qualquer 
mal, que nem suspeitas sobre isso pode ter e em cuja tola probidade montar vai facilmente minha 
velhacaria. A coisa  clara: terras vou ter, ganhando-as com finura; falhando o bero, o esprito as segura. 
(Sai.)
Cena III 
Um quarto no palcio do duque de Albnia. Entram Goneril e seu intendente Osvaldo. 
GONERIL - Meu pai bateu no gentil-homem, por ter este ralhado com o bobo dele? 
OSVALDO - Sim, minha senhora. 
GONERIL - Dia e noite me ofende. No se passa nenhuma hora sem que ele no fuzile com qualquer 
grosseria, que a ns todos traz somente discrdia. No o suporto; turbulentos esto seus cavaleiros e a 
censurar-nos ele prprio vive por d c aquela palha. No pretendo falar com ele, quando vier da caa. 
Dizei que estou doente; e, se cumprirdes com certa negligncia algum servio, estar bem; responderei 
por tudo. 
OSVALDO - Ei-lo, senhora; ouo o barulho, dele. 
(Ouve-se toque de trompa.) 
GONERIL - Mostrai a negligncia que quiserdes, vs e os outros de casa, pois desejo que me venha falar 
a esse respeito. Se no gostar, ento que se transfira para a casa da mana, cujo modo de pensar, estou 
certa, est de acordo com o meu, em no querer ser governada. Velho caduco, a pretender o mando sobre 
o que j doou! Por minha vida, os velhos tontos so de novo crianas; com ralhos, s, precisam ser 
tratados. Lembrai-vos do que eu disse. 
OSVALDO - Sim, senhora. 
GONERIL - E lanai frio olhar para seus homens. Pouco importa o que vier; avisai todos. Quero achar 
nisso tudo algum pretexto para poder falar. Sem mais delongas, escreverei  mana, para que ela faa 
como eu. Prepara logo a ceia. 
(Saem.) 
Cena IV 
Uma sala no mesmo. Entra Kent disfarado. 
KENT - Se eu puder conseguir uma outra fala que torne a minha estranha,  bem possvel que minha boa 
empresa a alcanar venha o xito pleno pelo qual as prprias feies desfigurei. Banido Kent, se ora 
servir puderes l mesmo de onde h pouco foste expulso, pode se dar que o mestre a que tanto amas te 
encontre servial. 
(Toque de trompa. Entram Lear, cavaleiros e sqito.) 
LEAR - No me faam esperar nem um segundo pelo jantar. Vai logo apront-lo. 
(Sai o criado.) Ento, quem s tu? 
KENT - Um homem, senhor. 
LEAR - Qual  a tua profisso? Que pretendes de ns? 
KENT - Minha profisso  no ser menos do que pareo; servir fielmente a quem confiar em mim; amar 
quem for honesto; conversar com quem for sbio e falar pouco; temer a justia; brigar quando no 
houver outro jeito, e no comer peixe.
LEAR - Quem s tu? 
KENT - Um tipo de corao honesto e to pobre quanto o rei. 
LEAR - Se como sdito s to pobre quanto ele como rei, s, realmente, pauprrimo. Que desejas? 
KENT - Servio. 
LEAR - A quem queres servir? 
KENT - A vs. 
LEAR - Conheces-me, companheiro? 
KENT - No, senhor; mas revelais algo em vossa postura, que me leva a vos chamar de mestre. 
LEAR - E que coisa  essa? 
KENT - Autoridade. 
LEAR - Que servios podes prestar? 
KENT - Sei guardar um segredo honesto, montar a cavalo, correr, estropiar uma histria interessante, 
dizer grosseiramente uma mensagem fcil. Tudo o que um homem ordinrio pode fazer, eu tambm 
posso, sendo o melhor em mim a diligncia. 
LEAR - Que idade tens? 
KENT - No sou to jovem, senhor, para amar uma mulher por causa de seu canto, nem to velho para 
me apaixonar por ela sem motivo: tenho quarenta e oito anos na carcunda. 
LEAR - Segue-me; irs servir-me. Se depois do jantar no me pareceres pior, no nos separaremos muito 
logo. O jantar, ol! Onde est o meu rapaz? O meu bobo? - Vs, a: ide chamar o meu bobo. 
(Sai um criado.) 
(Entra Osvaldo.) 
Vs a, maroto: onde est minha filha? 
OSVALDO - Se o permitis... 
(Sai.) 
LEAR - Que foi que disse aquele tipo? Chamai-me aqui esse rstico. 
(Sai um cavaleiro.) 
Onde est o meu bobo, eh! S parece que o mundo est dormindo. Ento, onde est esse mastim? 
(Volta o cavaleiro.) 
CAVALEIRO - Ele disse, milorde, que vossa filha no est passando bem. 
LEAR - Por que motivo aquele escravo no voltou, quando o chamei? 
CAVALEIRO - Senhor, ele me respondeu redondamente que no queria voltar. 
LEAR - No queria?
CAVALEIRO - Senhor, no sei o que acontece, mas, a meu ver, Vossa Alteza no  tratado com a 
afeio cerimoniosa a que estveis acostumado. Observa-se sensvel quebra de carinho, no s com 
relao  conduta da criadagem, como com a do prprio duque e a de vossa filha. 
LEAR - Ah! s dessa opinio? 
CAVALEIRO - Suplico-vos, milorde, que me perdoeis, se eu estiver enganado, mas o meu zelo no pode 
ficar calado, quando penso que Vossa Alteza est sendo prejudicado. 
LEAR - Fazes-me lembrado de minha prpria percepo; ultimamente tenho notado um certo qu de 
negligncia, que eu atribua mais  minha prpria natureza desconfiada do que a qualquer inteno real e 
ao propsito de descortesia. Vou examinar isso de mais perto. Mas onde est o meu bobo? H dois dias 
que no o vejo. 
CAVALEIRO - Desde que a minha jovem senhora partiu para a Frana, senhor, o bobo definhou 
bastante. 
LEAR - Sobre isso, basta; j o havia notado muito bem. - Vs a! Ide dizer a minha filha que desejo 
falar-lhe. 
(Sai o criado.) 
E vs, ide chamar o meu bobo! 
(Sai outro criado.) 
(Entra Osvaldo.) 
Oh! Vs, Senhor! Vinde c, senhor! Quem sou eu, senhor? 
OSVALDO - O pai da senhora. 
LEAR - "O pai da senhora"? O criado do senhor, co! Bastardo, escravo, maroto! 
OSVALDO - Com vossa permisso, milorde, mas no sou nada disso. 
LEAR - Atreves-te a fitar-me desse modo, biltre? 
(Bate-lhe.) 
OSVALDO - No consinto que me batam, milorde. 
KENT - Nem que te dem um pontap, meu jogador de futebol? 
(D-lhe um pontap.) 
LEAR - Agradeo-te, companheiro; tu me serves, e eu passarei a estimar-te. 
KENT - Vamos, senhor, levantai-vos! Fora daqui! Vou ensinar-vos a distinguir as pessoas. Fora! Fora! 
Se quiserdes medir outra vez vosso comprimento de labrego,  s continuardes aqui. Caso contrrio, 
fora! Vamos! No tendes senso? Assim! 
(Empurra Osvaldo para fora.) 
LEAR - Muito obrigado, amigo servidor; aqui est pelo teu servio. 
(D dinheiro a Kent.) 
(Entra o bobo.) 
BOBO - Eu tambm desejo recompens-lo; aqui est o meu barrete.
(Oferece o gorro a Kent.) 
LEAR - Ento, meu belo peralta, que ests fazendo? 
BOBO - Amigo, farias bem em aceitar o meu gorro. 
KENT - Por qu, bobo? 
BOBO - Por teres tomado o partido de quem j caiu no desagrado.  assim; se no puderes sorrir do lado 
do vento, em pouco tempo apanhars resfriado. Toma; fica como meu gorro. Ora v, este sujeito baniu 
duas de suas filhas e fez um grande favor  terceira, contra a prpria vontade dela. Se vais segui-lo, 
precisars usar o meu gorro. Ento, meu tio? Quisera ter dois gorros e duas filhas. 
LEAR - Por qu, menino? 
BOBO - Se eu chegasse a lhes dar todos os meus haveres, me reservaria os gorros. Este aqui me 
pertence; pede outro a tuas filhas. 
LEAR - Toma cuidado com a chibata, maroto! 
BOBO - A verdade  um cachorro que se mete na casinha e precisa ser chibateada para sair, enquanto a 
senhora galga pode ficar a feder junto do fogo. 
LEAR - Pestilncia amarga para mim! 
BOBO (a Kent) - Amigo, vou ensinar-te um discurso. 
LEAR - Ouamo-lo. 
BOBO - Toma nota, tio: No esbanjes teu estado; embora o saibas, calado; no andes, sejas levado; no 
aprender, muito cuidado; guarda sempre o mor bocado; deixa as mulheres e o vinho; no te metas com o 
vizinho, porque em uma e outra dezena ters mais uma vintena. 
KENT - Isso tudo e nada  a mesma coisa, bobo. 
BOBO - Ento  como discurso de advogado sem salrio. Destes-me nada por ele. Tio, podereis fazer 
algum uso de nada? 
LEAR - No, menino; nada pode ser feito de nada. 
BOBO - (a Kent) - Por obsquio, dize-lhe a quanto monta a renda de suas terras; ele no acredita num 
bobo. 
LEAR - Um bobo amargo. 
BOBO - Sabers dizer, meu rapaz, que diferena h entre um bobo amargo e um bobo doce? 
LEAR - No, menino; ensina-ma. 
BOBO - Quem o conselho te deu de doar todas as tuas terras pe aqui ao lado meu, e o dele toma; no 
erras: vers logo, lado a lado, o doce bobo e o amargoso; um aqui, sarapintado, o outro a mesmo, 
achacoso.
LEAR - Com isso queres dizer que eu sou bobo, menino? 
BOBO - J abriste mo de todos os outros ttulos; esse  o nico que te veio do bero. 
KENT - Milorde, o que ele disse no  inteiramente destitudo de senso. BOBO - No, por minha f; os 
senhores e os grandes no permitiro que eu fique sozinho; se eu obtiver o monoplio, eles ho de querer 
sua parte, e as senhoras tambm; no deixaro que toda a loucura fique comigo; viro arrebatar-me um 
pedao. Tio, d-me um ovo, que te darei duas coroas. 
LEAR - Que espcie de coroas? 
BOBO - Ora, depois de haver cortado o ovo em duas partes e comido o seu contedo, as duas coroas do 
ovo. Quando partiste pelo meio a tua coroa e deste as duas metades, carregas-te o burro s costas atravs 
do atoleiro. No tinhas esprito em tua coroa calva, quando fizeste presente da de ouro. Se eu falar sobre 
isso como costumo, que seja chicoteado o primeiro que me compreender. Nunca os lobos passaram tanto 
apuro. O sbio  tolo e fraco; a mente no podendo usar no escuro, vive como macaco. 
LEAR - Desde quando ficaste to amigo de canes, maroto? 
BOBO - Ora, tio, desde que de tuas filhas fizeste tuas mes. Porque desde que lhes entregaste a vergasta 
e desceste os cales, elas choram de alegria; de tristeza eu rio e canto, por ver um rei na folia mas na 
cabea, nem tanto. Tio, por obsquio, arranja um mestre-escola que ensine teu bobo a mentir. Desejara 
muito aprender a mentir. 
LEAR - Se mentires, maroto, sers aoitado. 
BOBO - No posso compreender que tu e tuas filhas sejais aparentados; elas me aoitam por eu dizer a 
verdade, enquanto tu pretendes fazer o mesmo no caso de eu mentir, sem contarmos que algumas vezes 
tenho sido aoitado por estar quieto. Quisera ser tudo neste mundo, menos bobo, mas no desejo ser o 
que s, tio; dos dois lados raspaste o esprito, sem deixar nada no meio. A vem vindo uma das 
raspadoras. 
(Entra Goneril.) 
LEAR - Ento, filha? Por que esse diadema carrancudo? Ultimamente s parece que andais sempre de 
sobrecenho fechado. 
BOBO - Tu eras um belo tipo, quando no precisavas preocupar-te com as suas carrancas; agora s um 
zero sem nmero. Presentemente, sou mais do que tu; sou um bobo, ao passo que tu s nada. 
(A Goneril.) 
Pois no, pois no! Vou segurar a lngua, que  o que vossa fisionomia me est ordenando, muito embora 
nada houvsseis dito. Mum, mum! Quem no guardou mel nenhum, tem de viver em jejum. Ali est uma 
ervilha sem gro. 
(Apontando para Lear.) 
GONERIL - No somente, senhor, o vosso bobo, que se permite muitas liberdades, como outros 
cavaleiros insolentes de vosso sqito, a cada hora brigam e suscitam questes, fazendo arruaas de todo 
intolerveis. Pois, senhor, pensei que, pondo-vos a par do fato, acharia remdio; mas comeo, realmente, 
a me temer, pelo que h pouco dissestes e fizestes, que esse abuso apoio encontra em vs, tomando 
alento em vossa tolerncia. Se for isso, no deixar de ser punida a falta nem de velar os meios de defesa 
que, ao bem-estar de todos s visando, poder ofender-vos por maneira que, em outras conexes, fora
aprobriosa, mas que a necessidade o nome empresta de conduta discreta. 
BOBO - Porque, como sabeis, tio, tanto ao pardal o cuco deu bom milho, que a cabea esmagou-lhe o 
prprio filho. E assim a luz se apagou e ns ficamos no escuro. 
LEAR - Sois nossa filha? 
GONERIL - Desejara que ussseis o bom senso de que vos sei provido e que pussseis de lado essas 
disposies recentes que a tal ponto vos tem mudado a essncia. 
BOBO - No saber um asno, quando a carroa puxa o cavalo? "Toca, Jug! Eu te amo!" 
LEAR - Conhece-me ainda algum? No, no  Lear. Andava Lear assim? Falava assim? Onde ter os 
olhos? H de fraca ter a razo e rombos os sentidos. Estarei acordado? No. Quem pode vir-me contar 
quem em verdade eu seja? 
BOBO - A sombra de Lear. 
LEAR - Desejaria aprender isso, porque pelos atributos da soberania, do conhecimento e da razo, eu 
seria levado a crer que tive filhas. 
BOBO - Que fariam de vs um pai obediente. 
LEAR - Como vos chamais, bela senhora? 
GONERIL - Esse espanto, senhor,  mui do gosto de vossa nova telha. Desejara que compreendsseis 
bem minha inteno. Por velho e venervel, devereis ser sensato tambm. Uma centena de cavaleiros e 
escudeiros tendes para servir-vos, gente de tal modo desordeira, atrevida e depravada, que nossa corte, 
corrompida pelas prticas deles todos, se assemelha a taberna em motim. O epicurismo e a torpeza 
fizeram-na tornar-se mais taberna e bordel do que palcio cheio de tradies. O prprio pejo est a exigir 
uma medida urgente. Deixai-vos, pois, rogar por quem, sem isso, vos tomara o que pede, isto , de um 
pouco reduzir vosso sqito, devendo ser o restante, apenas, destinado a vos cuidar da idade e, sobretudo, 
ter conscincia de vs e dessa gente. 
LEAR - Demnio e inferno! Tragam meu cavalo! Reuni logo meu sqito! Bastarda degenerada, no 
desejo ser-te pesado em nada. Resta-me outra filha. 
GONERIL - Bateis na minha gente, e essa canalha desordenada trata os superiores como se fossem 
criados. 
(Entra Albnia.) 
LEAR - Ai de quem se arrepende tardiamente! (A Albnia.)  senhor, vs aqui? So ordens vossas? 
Falai, senhor! - Ol! Mandai trazer-me o meu cavalo! - Ingratido, demnio de corao de mrmore, 
mais feio, quando numa criana se revela, do que o monstro marinho. 
ALBNIA - Por obsquio, senhor, ficai mais calmo. 
LEAR (a Goneril) - Detestvel harpia, ests mentindo! Minha gente toda  escolhida e de costumes 
limpos; conhecedores so de seus deveres e com muito cuidado mantm sempre a honra do prprio 
nome.  faltazinha, como em Cordlia apareceste feia! Tu, como banco de tormento, as traves de minha 
natureza deslocaste de seu estado fixo e todo o afeto me chupaste do peito, transformando-o no fel mais
amargoso.  Lear!  Lear! 
(Batendo na testa.) 
Bate agora a esta porta, que a loucura deixou entrar e o teu to caro juzo permitiu que sasse. Vamos, 
vamos, minha gente! 
ALBNIA - Senhor, sou inocente, como no sei tambm qual o motivo que vos deixou colrico. 
LEAR -  possvel, meu senhor. Natureza, agora me ouve! Deusa querida, atende-me! Suspende teus 
desgnios, se acaso pretendias deixar fecunda agora esta criatura; ao ventre lana-lhe a esterilidade, 
ressequidos lhe deixa os rgos todos da procriao, no permitindo nunca que lhe nasa do corpo 
desprezvel uma criana que a possa honrar um dia. Se tiver de procriar, que tenha um filho feito s de 
malcia, porque viva para um desnaturado e pervertido tormento lhe ser sempre. Que lhe faa muitas 
rugas nascer na fronte jovem e, com ardentes lgrimas, profundos sulcos lhe abra nas faces; que 
compense com chacotas e riso os sofrimentos e cuidados maternos, para que ela possa ver como di mais 
fundamente que o dente da serpente a filha ingrata. Fora daqui! Partamos! 
ALBNIA - Deuses do alto, que adoramos, que  que houve? 
GONERIL - No vos seja preocupao saberdes o motivo. Que seus caprichos tenham livre o campo que 
sua caduquice lhes confere. 
(Volta Lear.) 
LEAR - Como! Cinqenta dos meus homens, postos de lado, de uma vez, em quinze dias? 
ALBNIA - Que aconteceu, senhor? 
LEAR - J vou contar-te. 
(A Goneril.) 
Vida e morte! Envergonha-me que tenhas poder para abalar dessa maneira minha virilidade e que estas 
lgrimas escaldantes, que  fora se me escapam, te faam parecer condigna delas. Caiam em ti 
nevoeiros e rajadas. Que as feridas profundas da paterna maldio os sentidos te corroam. Velhos olhos e 
tontos, se chorardes novamente essa causa, hei de arrancar-vos para ao barro atirar-vos e, com as gotas 
que estiverdes perdendo, amolec-lo. Chegamos a este ponto? Pois que seja! Outra filha me resta, 
estando eu certo de que ela  para mim bondosa e afvel. Quando vier a saber o que fizeste, h de com as 
prprias unhas arranhar-te essas feies de lobo. Ento, a forma me vers reassumir que ora presumes 
perdida para sempre.  o que te digo. 
(Saem Lear, Kent e o sqito.) 
GONERIL - Ouvistes tudo? 
ALBNIA - Goneril, no posso ser to parcial, embora vos estime... 
GONERIL - Por obsquio,  o bastante. Ol! Osvaldo! (Ao bobo.) Vs, senhor, mais velhaco do que 
bobo, segui vosso patro. 
BOBO - Tio Lear! Tio Lear! Espera a e leva o bobo contigo! Se uma raposa eu pegasse com sua filha 
repace e o couro dela tirasse... De gorro assim sobre a face, seria o bobo da classe. 
(Sai.) 
GONERIL - Esse homem tem razo: cem cavaleiros! Fora boa poltica, em verdade, deix-lo com cem
homens que, por nada, qualquer queixa, capricho ou fantasia, armas  caduquice lhe dariam, ficando 
dependendo nossas vidas s de sua merc. Ol, Osvaldo! 
ALBNIA - Vosso medo  excessivo. 
GONERIL -  mais seguro do que confiar demais. E prefervel o obstculo afastar de que me temo, a 
temer ser pegada de surpresa. Conheo-o muito bem; j por escrito comuniquei  mana o que ele disse. 
Se ela o aceitar com todos os seus homens depois de eu ter mostrado... 
(Entra Osvaldo.) 
Ento, Osvaldo, j escrevestes a carta para a mana? 
OSVALDO - Sim, escrevi, senhora. 
GONERIL - Levai convosco alguns dos nossos homens e parti a cavalo. Dai-lhe plenas informaes de 
tudo o que receio, acrescentando o que quiserdes, para reforar o recado. Parti logo, e, assim, voltai 
depressa. 
(Sai Osvaldo.) 
No, milorde, essa brandura que mostrais, leitosa, conquanto eu no censure, permiti-me que vos diga, 
porm: mais censurado sois por falta de senso do que mesmo louvado por bondoso em demasia. 
ALBNIA - No sei at onde vosso olhar alcana, mas temo que estragueis a boa usana. 
GONERIL - Ento... 
ALBNIA - Bem, bem; os fatos o diro. (Saem.) 
Cena V 
Ptio diante do mesmo. Entram Lear, Kent e o bobo. 
LEAR - Parti na frente, para Gloster, com estas cartas. No conteis a minha filha do que sabeis seno o 
que ela vos perguntar com relao ao assunto da carta. Se no fordes muito diligente no recado, chegarei 
l primeiro. 
KENT - No dormirei, senhor, enquanto no tiver entregue vossa carta. 
(Sai.) 
BOBO - Se o homem tivesse o crebro no calcanhar, no correria o risco de apanhar frieira? 
LEAR - Correria, pequeno. BOBO - Ento peo-te que fiques alegre, porque o teu esprito no ir andar 
de chinelas. 
LEAR - Ah, ah, ah! 
BOBO - Vais ver como tua outra filha te trata bem, porque embora ela se parea tanto com esta aqui 
como uma ma silvestre com uma ma comum, posso dizer o que posso dizer. 
LEAR - Que  que podes dizer, pequeno? BOBO - Que ela te vai ser de gosto to idntico ao gosto desta 
como o de duas mas silvestres. Sabers dar-me a razo de termos o nariz no meio do rosto? 
LEAR - No.
BOBO - Ora,  para ficarmos com um olho de cada lado do nariz, a fim de espiarmos o que no 
pudermos cheirar. 
LEAR - Fui injusto com ela... 
BOBO - Sabes como  que a ostra fabrica a valva? 
LEAR - No. 
BOBO - Nem eu; mas poderei dizer-te porque o caracol tem casa. 
LEAR - Por que ? 
BOBO - Ora,  para guardar a cabea e no a dar s filha ficando, assim, sem ter onde guardar os cornos. 
LEAR - Quero esquecer minha natureza. Um pai to carinhoso! Esto prontos os cavalos? 
BOBO - Teus asnos foram procur-los. A razo por que sete estrelas no so mais de sete  muito 
interessante. 
LEAR - No  por no serem oito? 
BOBO - Justamente. Darias um excelente bobo. 
LEAR - Retom-lo pela fora! Ingratido monstruosa! 
BOBO - Se tu fosses o meu bobo, tio, eu te daria uma sova por teres ficado velho antes do tempo. 
LEAR - Como assim? 
BOBO - No devias ter envelhecido antes de ficares sbio. 
LEAR - No quero ficar louco, cu bondoso! Mantm-me o juzo; tudo menos louco! 
(Entra um gentil-homem.) 
Ento, esto prontos os cavalos? 
GENTIL-HOMEM - Esto prontos, senhor. 
LEAR - Vamos, pequeno. 
BOBO - A donzela que rir de mim neste momento, donzela no ser, se  certo o que ora avento. 
(Saem.) 
ATO II 
Cena I 
Ptio diante do castelo do duque de Gloster. Entram Edmundo e Curan, que se encontram. 
EDMUNDO - Deus te guarde, Curan. 
CURAN - E a vs tambm, senhor. Estive com vosso pai e lhe dei a notcia de que o duque de Cornualha 
e Regane sua duquesa chegaro aqui esta noite.
EDMUNDO - E por que isso? 
CURAN - Ignoro-o. No ouvistes as notcias que correm por a? Refiro-me apenas s que so 
cochichadas e que no so mais do que assuntos soprados aos ouvidos. 
EDMUNDO - Eu? No. Por obsquio, quais so elas? 
CURAN - No ouvistes dizer que  muito provvel uma guerra entre os duques de Cornualha e de 
Albnia? 
EDMUNDO - Nem uma palavra. 
CURAN - Ento ainda haveis de ouvir algo a esse respeite. Passai bem, senhor. 
(Sai.) 
EDMUNDO - O duque aqui esta noite? Melhor... timo! Isso cai mesmo certo no meu plano. Meu pai 
ps gente em busca de meu mano e um negcio nauseoso ainda me resta para ser posto em prtica. Mos 
 obra. Celeridade e sorte! Mano, mano! Uma palavra! Vinde! Estou chamando! 
(Entra Edgar.) 
Meu pai est de espreita. Oh! Fugi logo; deixai o esconderijo, que este ponto j se tornou sabido. E 
conveniente aproveitar a noite. Por acaso no vos manifestastes em prejuzo do duque de Cornualha? Ele 
vem vindo para aqui, apressado, em plena noite, e Regane com ele. No dissestes a favor dele nada, 
contra o duque de Albnia? Pensai bem. 
EDGAR - No disse nada, tenho certeza. 
EDMUNDO - Ouo meu pai que chega. Perdoai-me, mas por fingimento, apenas, tirai tambm a espada 
e defendei-vos, s por simulao. Parti, agora. - Rendei-vos! Vamos ante nosso pai! Luz, aqui! - Fugi, 
mano! - Tochas! Tochas! - Assim. Adeus, adeus. 
(Sai Edgar.) 
Agora um pouco de sangue h de fazer nascer a idia de um combate mais srio. 
(Fere-se no brao.) 
J vi bbedos fazer por brincadeira mais do que isso. 
Pai! Pai! Prendei! Prendei! Ningum me ajuda? 
(Entram Gloster e criados, com tochas.) 
GLOSTER - Edmundo, onde est o biltre? 
EDMUNDO - Aqui se achava, no escuro, espada em punho, depravados conjuros resmungando e, como 
a dama auspiciosa, a invocar a prpria lua. 
GLOSTER - Mas onde est? 
EDMUNDO - Senhor, estou sangrando. 
GLOSTER - Mas onde est esse vilo, Edmundo? 
EDMUNDO - Fugiu por l, senhor, quando viu que era de todo intil... 
GLOSTER - L? Ide atrs dele! 
(Saem alguns criados.)
"De todo intil..." Qu? 
EDMUNDO - Sim, persuadir-me a vos tirar a vida. Respondi-lhe que os deuses vingadores desferiam 
seus duros raios contra os parricidas; lembrei-lhe os laos mltiplos e fortes que aos pais os filhos 
prendem. Em resumo, senhor: vendo o desgosto que eu opunha a suas intenes desnaturadas, 
enraivecido, espada em punho, ataca-me o corpo exposto e o brao aqui me fere. Mas ao ver que os 
espritos eu tinha bem despertos e que pela justeza da causa a combat-lo se atreviam, ou por eu ter muito 
barulho feito, de repente, fugiu. 
GLOSTER - Pode esconder-se onde quiser, que neste territrio encontrado h de ser. E, uma vez preso... 
liquidado. Meu mestre, o nobre duque, meu mui digno patrono e amado prncipe chega esta noite. Assim, 
proclamarei, com sua autoridade, que h de nossa graa alcanar quem quer que encontre o biltre e o 
covarde assassino entregue ao cepo. E se algum o esconder, morra igualmente! 
EDMUNDO - E quando procurava dissuadi-lo de semelhante intento, achando-o cada vez mais 
determinado em realiz-lo, e ameacei denunci-lo, respondeu-me: "Bastardo sem haveres, ento pensas 
que, se acareados fssemos, alguma confiana em teu valor, virtude ou mrito reforar poderia o que 
dissesses? No; pois o que eu negasse - e hei de faz-lo, embora apresentasses cartas minhas - atribuiria 
tudo a teus conselhos, traa e manobras prfidas. Preciso fora deixares tolo o mundo inteiro, para que 
ningum visse quanto o lucro de minha morte te seria estmulo para que a procurasses". 
GLOSTER - Celerado teimoso e endurecido! Negaria sua prpria carta? No, no  meu filho. 
(Fanfarras.) 
Ateno! As trombetas so do duque. No sei por que motivo nos visita. Os portos fecharei, para que o 
biltre no nos possa escapar. O duque me h de permitir isso. Espalharei por toda parte o retrato dele; 
assim, o reino conhecer seus traos. Minhas terras, rapaz fiel e natural, recursos hei de arranjar para que 
a herd-las venhas. 
(Entram Cornualha, Regane e sqito.) 
CORNUALHA - Ento, meu nobre amigo? Desde o instante que aqui cheguei - e foi neste momento - 
soube coisas mui raras. 
REGANE - Confirmadas, toda vingana ainda no bastara para ir sobre o ofensor. Ento, milorde? 
GLOSTER -  senhora, senhora! Espedaado ficou-me o corao. Espedaado! 
REGANE - Como! O afilhado de meu pai tentou contra vossa existncia? Aquele mesmo em que meu 
pai ps nome? Vosso Edgar? 
GLOSTER - O senhora! A vergonha ora me manda ficar calado. 
REGANE - Acaso ele no era companheiro dos homens turbulentos que servem a meu pai? 
GLOSTER - No sei, senhora Oh!  terrvel tudo! 
EDMUNDO - Sim, senhora; pertencia a esse bando. 
REGANE - Se assim , no admira que mostrasse sentimentos to baixos. Partiu deles a idia de matar o 
velho, para desbaratarem logo seus haveres. De minha irm recebi hoje cedo boas informaes sobre essa 
gente, com tantas advertncias, que, se acaso quiserem ir parar em minha casa, no me encontrarei l.
CORNUALHA - Nem eu, Regane. Edmundo, soube agora que prestastes a vosso pai servios de bom 
filho. 
EDMUNDO - S fiz o meu dever. 
GLOSTER - Fez frustrar a manobra do outro, tendo recebido a ferida que aqui vedes, quando tentou 
prend-lo. 
CORNUALHA - Seguiu gente no encalo dele? 
GLOSTER - Sim, meu bom senhor. 
CORNUALHA - Sendo apanhado, havemos de deix-lo em condies de nunca mais receio vir a causar 
a algum. Tomai vs mesmo todas as providncias e disponde do meu poder como vos for do agrado. E 
vs, Edmundo, to recompensado neste momento, assim pela obedincia como pela virtude, sereis nosso. 
Pessoas de lealdade to provada so muito necessrias. Comeamos, assim, por nos apoderar de vs. 
EDMUNDO - Embora mais no faa, hei de lealmente servir a meu senhor. 
GLOSTER - Muito agradeo por ele a Vossa Graa. 
CORNUALHA - Com certeza no sabeis a razo desta visita... 
REGANE - . . .assim fora de tempo, abrindo nosso caminho pela noite de olhos negros. Motivos, nobre 
Gloster, de algum peso tornam vossos conselhos necessrios. Nosso pai nos escreve, e nossa mana, sobre 
certos dissdios, parecendo-me mais acertado responder a todos longe de nossa casa. Os mensageiros 
esto aqui  espera da resposta. Velho e bondoso amigo, deixai calmo, de todo, o corao, e em nosso 
auxlio vinde com bons conselhos sobre assunto que exige muita urgncia. 
GLOSTER - Ao vosso inteiro dispor, senhor, me encontro. Vossas Graas so bem-vindas aqui. 
(Saem.) 
Cena II 
Diante do castelo de Gloster. Entram Kent e Osvaldo, por lados diferentes. 
OSVALDO - Boa manh para ti, amigo; s desta casa? 
KENT - Sou. 
OSVALDO - Onde poderemos pr os cavalos? 
KENT - No charco. 
OSVALDO - Informa-me, por obsquio, se me tens amizade. 
KENT - No te tenho amizade nenhuma. 
OSVALDO - Nesse caso no me preocuparei contigo. 
KENT - Se eu te pegasse no curral de Lipsbury, obrigar-te-ia a te preocupares comigo. 
OSVALDO - Por que me tratas desse modo? No te conheo.
KENT - Mas eu te conheo, traste. 
OSVALDO - Por quem me tomas tu? 
KENT - Por um biltre, um canalha, devorador de restos; um biltre ignbil, atrevido, oco, indigente, de 
trs librs, massabruta, imundo, de meias estragadas; um biltre com fgado de lrio, um chicanista; 
nascido na sarjeta, namorador do espelho, espinha mole, petimetre; um lacaio que s herdou uma roupa, 
um tipo que servir de alcoviteiro,  guisa de bons servios, mas que no passa de um misto de velhaco, 
mendigo, covarde, alcoviteiro e herdeiro de uma cadela bastarda; um tipo em que darei uma coa de 
arrancar rugidos, no caso de contestares a menor slaba de todos estes teus ttulos honorficos. 
OSVALDO - Ora, que sujeito monstruoso s tu, para deblaterares contra uma pessoa que nem te conhece 
nem  conhecida por ti? 
KENT - Que tipo de cara de bronze s tu, para dizeres que no me conheces, se h dois dias eu te dei um 
pontap na frente do rei? Saca a tua espada, pulha; ser noite no importa, visto que h luar; vou fazer de 
ti uma sopa  luz da lua. 
(Sacando da espada.) 
Vamos, desembainha tambm a tua espada, maroto, coisa  toa, peralvilho! Vamos, desembainha! 
OSVALDO - Retira-te daqui! No tenho nada que ver contigo. 
KENT - Desembainha, maroto! Trouxestes cartas contra o rei e tomais o partido da boneca vaidosa, 
contra a realeza do pai dela. Saca a espada, biltre; se no retalho-te as canelas. Saca da espada, biltre! 
Toma posio! 
OSVALDO - Socorro! Ol! Assassino! Socorro! 
KENT - Ataca, escravo! Defende-te, patife! Defende-te! Vamos, ataca, lacaio! 
(Bate-lhe.) 
(Entra Edmundo, de florete na mo.) 
EDMUNDO - Ento, que aconteceu? 
KENT - E convosco, se vos aprouver, meu rapazinho. Vinde, meu jovem mestre, que desejo dar-vos uma 
lio. 
(Entram Cornualha, Regane, Gloster e criados.) 
GLOSTER - Espadas! Armas! Que se passa aqui? 
CORNUALHA - Por vossa vida, paz! Morre quem prosseguir. Que  que se passa? 
REGANE - Os mensageiros so do rei e da mana. 
CORNUALHA - Qual o motivo dessa briga? Vamos! 
OSVALDO - Quase no posso respirar, milorde. 
KENT - No admira, pois foraste demais a valentia. Pulha covarde! A natureza te renega; foste feito por 
algum alfaiate. 
CORNUALHA - Es um tipo curioso; um alfaiate fazer um homem?
KENT - Sim, um alfaiate, senhor; um escultor ou um pintor no o teriam feito to mal, ainda que s 
trabalhassem duas horas. 
CORNUALHA - Falai vs agora: que foi que originou essa briga? 
OSVALDO - Este velho desordeiro, senhor, cuja vida eu poupei s por causa daquelas barbas brancas... 
KENT - Z amaldioado! Letra intil! Milorde, se o permitirdes, amassarei num pilo esse vilo grosseiro, 
para enlambuzar com ele as paredes da latrina. Ento poupastes-me as barbas brancas, meu ranheta? 
CORNUALHA - Silncio, biltre! Grosseiro, desconheces o respeito? 
KENT - Conheo, sim senhor; mas  que a clera tambm tem privilgios. 
CORNUALHA - Por que causa ficastes to colrico? 
KENT - Por ver de espada um pulha destitudo de honestidade. Os biltres sorridentes como este aqui, tal 
qual os ratos, roem os laos sacrossantos que, por fortes, no podem desmanchar; adulam todas as 
paixes que refervam no imo peito de seus amos; no fogo pem mais leo; mais neve, nos humores, de si 
frios; afirmam, negam, viram seus pescoos de alcio, de acordo com as menores brisas e variaes dos 
amos, ignorando, como os ces, tudo o mais, seno seguir. A peste nessa cara de epilptico! Do meu 
discurso ris como de um tolo? Ganso, se eu te apanhasse na plancie de Sarnum, tocar-te-ia a Camelot, 
fazendo-te grasnar. 
CORNUALHA - Que  isso, velho? Ficastes louco? 
GLOSTER - Qual a razo disso? Vamos, falai. 
KENT - No pode haver contrrios que revelem maior antipatia do que eu e esse patife. 
CORNUALHA - Por que causa o chamas de patife? Que te fez? 
KENT - No vou com a cara dele. 
CORNUALHA - Nem com a minha no  assim? E a deste aqui, e a dela?... KENT - Senhor, tenho por 
hbito ser franco: em minha vida toda j vi rostos mais agradveis do que quantos posso discernir sobre 
os ombros dos presentes. 
CORNUALHA - E algum sujeito que por j ter sido louvado de franqueza, usa linguagem rude e 
insolente, contra as prprias vestes de sua natureza. - lhe impossvel adular. No! Carter reto e 
honesto. S diz o que  a verdade; os mais que a aceitem, se puderem; se no, falou sincero. Conheo 
muito bem esses bargantes, cuja franqueza abriga mais enganos e corruptos intentos do que vinte desses 
coitados cheios de zumbaias que cumprem belamente seus deveres. 
KENT - Por minha alma, senhor, pela verdade, com a permisso de vosso augusto aspecto, cujo poder  
como a aurola rtila da cabea de Febo coruscante... 
CORNUALHA - Que pretendeis com isso? 
KENT - Deixando de lado meu estilo, que tanto desaprovais, senhor, sei perfeitamente que no sou 
bajulador. Quem vos enganou com fraseado polido no passava de um velhaco, o que, de minha parte, 
no pretendo ser, ainda que disso me adviesse conquistar o vosso desagrado.
CORNUALHA - Que ofensa lhe fizestes? 
OSVALDO - Eu? Nenhuma. Por um mal-entendido, no faz muito, aprouve ao rei, seu mestre, 
castigar-me. Para adular-lhe a clera, atirou-se-me este aqui por detrs e derrubou-me, sobre insultar-me, 
por me ver cado, remoques atirando-me e estadeando tanta virilidade, como se algo, de fato, fosse, e 
encmios ganhou logo do rei, porque atacara quem j estava vencido por si mesmo. E ora, animado pelo 
xito de to grandioso feito, me atacou novamente. KENT - Todos esses covardes e mandries fazem de 
bobo ao prprio Ajaz. 
CORNUALHA - Tragam-me logo o cepo! Maroto pertinaz, encanecido fanfarro, haveremos de 
ensinar-vos... 
KENT - Senhor, para aprender sou muito velho. Para mim no mandeis trazer o cepo. Perteno ao rei, e 
foi por seu mandado que vos vim procurar. Revelareis pouco respeito e excesso de arrogncia contra a 
pessoa e a graa de meu amo, pondo no cepo o mensageiro dele. 
CORNUALHA - Trazei-me o cepo! Por minha alma e honra, h de ficar a at ao meio-dia. 
REGANE - Meio-dia? At  noite, meu senhor; a noite toda, alis. 
KENT - Como, senhora! Se eu fosse o co de vosso pai, decerto no me dareis esse tratamento. 
REGANE - Mas dou-vo-lo, por serdes seu criado 
. CORNUALHA - Este tipo  da cor dos que nos fala nossa irm. Vamos; tragam logo o cepo! 
(O cepo  trazido.) 
GLOSTER - Deixai-me suplicar a Vossa Graa que no faais tal coisa. Sua falta foi grande; mas o rei, 
seu bondoso amo, saber castig-lo. A pena baixa que ora lhe destinais s  aplicvel aos mais vis 
transgressores, por delitos ordinrios ou crimes de pilhagem. O rei h de achar mal ver-se tratado com 
to pouco respeito no emissrio que aqui vai ficar preso. 
CORNUALHA - Isso  comigo; responderei por tudo. 
REGANE - Pior ainda h de achar minha irm que houvesse sido agredido e insultado o gentil-homem 
da parte dela. - Assim; prendei-lhe os ps. Caro senhor, partamos. 
(Kent  posto no cepo.) 
(Saem todos, com exceo de Gloster e Kent.) 
GLOSTER - Amigo, ds-me pena; mas o duque foi que o determinou, sabendo todos que seu 
temperamento no suporta ser friccionado em nada ou posto em xeque. Hei de pedir por ti. 
KENT - No, por obsquio, senhor; no dormi nada e andei bastante. Parte do tempo dormirei; o resto 
passarei assobiando. Pode dar-se que pelos calcanhares cresa a sorte de um homem de valor. Dou-vos 
bom dia. 
GLOSTER - Est errado o duque. Isto vai mal. 
(Sai.) 
KENT - Bom rei, confirmas o brocardo antigo: deixas as bnos de um cu calmo e lmpido pelo sol 
escaldante. Vem para perto, luz do mundo baixo, porque eu consiga ler esta missiva sob os teus raios
brandos. Quase nunca vemos milagres, se no for apenas quando infelizes. Veio-me esta carta, sei-o bem, 
de Cordlia, que, por sorte, ficou sabendo de meu curso obscuro e h de achar ocasio, nesta nossa poca 
desordenada, para dar remdio ao que estiver doente. To cansados por contnuas viglias, alegrai-vos, 
olhos pesados, por no conseguirdes ver bem neste aposento vergonhoso. Fortuna, passa bem; sorri de 
novo e faze andar mais uma vez a roda. 
(Adormece.) 
Cena III 
Uma parte da charneca. Entra Edgar. 
EDGAR - Eu prprio ouvi o prego em que diziam que me acho foragido, tendo  caa conseguido 
escapar no oco de uma rvore. No h porto algum livre, nenhum ponto 59 em que no haja guarda e 
rigorosa vigilncia, no intuito de apanhar-me. Salvo estarei enquanto fugir deles, pretendendo assumir a 
mais abjeta, mais humilde aparncia com que nunca, no seu desprezo aos homens, a misria dos animais 
se houvesse aproximado. Lama no rosto hei de passar, nos lombos porei qualquer coberta, desmanchados 
trarei sempre os cabelos, e, com minha nudez patente, hei de enfrentar a fria dos ventos e do cu. Tenho 
modelos e precedentes aqui mesmo, nesses mendigos tresloucados que, com urros, nos braos nus e 
entorpecidos cravam alfinetes, espinhos, pregos, ramos de rosmaninho e, assim, de aspecto horrvel, nas 
cabanas, nas vilas miserveis, nos apriscos de ovelhas, nos moinhos, com imprecaes de loucos ou com 
rezas a caridade foram. Pobre Tom! Pobre Turlu! J sou alguma coisa; mas, como Edgar, serei coisa 
nenhuma. 
(Sai.) 
Cena IV 
Diante do castelo de Gloster. Kent no cepo. Entram Lear, o bobo e um gentil-homem. 
LEAR -  estranho que de casa se partissem sem me terem reenviado o mensageiro. 
GENTIL-HOMEM - Pelo que saber pude, at esta noite teno no tinham de sair de casa. 
KENT - Salve, meu nobre mestre! 
LEAR - Como! Fazes da vergonha recreio? 
KENT - No, milorde. 
BOBO - Ah! ah! Usa ligas muito duras. Os cavalos so amarrados pela cabea; cachorros e ursos, pelo 
pescoo; os macacos, pela cintura, e os homens pelas pernas. Quando algum tem as pernas muito 
desenvoltas, cala meias de pau. 
LEAR - Quem errou a tal ponto com teu posto, para te pr a? 
KENT - Foi ele e ela; o filho e a filha vossa. 
LEAR- No! 
KENT -  certo.
LEAR - No, repito. 
KENT - O contrrio eu tambm digo. 
LEAR - No fariam tal coisa. 
KENT - Pois fizeram. 
LEAR - Juro por Jpiter que no. 
KENT - Por Juno, torno a jurar que sim. 
LEAR - No o ousariam, no poderiam t-lo feito. For a pior do que um assassnio tal ultraje ao respeito 
infligir. Com a mais decente pressa agora me conta de que modo pudeste merecer, ou antes, eles 
infligir-te essa pena, se aqui vieste de nossa parte como mensageiro. 
KENT - No instante em que, senhor, na casa deles a missiva entreguei de Vossa Alteza, sem que tivesse 
tido tempo ainda de alar-me do lugar em que se achava meu dever ajoelhado, fumegante chegou um 
correio, em gua todo esfeito de tanta pressa, o flego cortado, a arquejar cumprimentos de sua ama, 
Goneril. Entregou-lhes uma carta - sem se importar com meu recado em curso - que lida fui de pronto, e 
a cujo assunto os homens logo renem, vo diretos para os cavalos, dizem-me que os siga e o vagar da 
resposta aqui esperasse, dirigindo-me sempre olhares frios. Tendo o outro mensageiro aqui encontrado, 
cuja chegada, vira-o bem, a minha havia envenenado - e que era o mesmo velhaco que se comportara 
contra Vossa Alteza com tanto atrevimento - mostrando-me mais homem do que sbio, saquei da espada, 
enquanto ele alarmava toda a casa com berros de covarde. Acharam, vosso filho e vossa filha, essa 
infrao bastante grave, para o oprbrio merecer por que ora passo. 
BOBO - O inverno ainda no passou, no caso de voarem nesta direo os patos selvagens. Quando os 
pais s vestem trapos, os filhos nem querem v-los; quando so ricos e guapos, so para eles s desvelos. 
A Fortuna marafona sempre os pobres abandona. Mas apesar de tudo, tuas filhas te proporcionaro mais 
dlares do que possas contar em um ano. 
LEAR - Oh! Como ao peito esta paixo me sobe! Desce, "histerica passio", dor que sobe! E em baixo teu 
lugar. E onde est a filha? 
KENT - Senhor, com o conde, a dentro. 
LEAR - No me sigas; espera aqui. 
(Sai.) 
GENTIL-HOMEM - Nenhuma ofensa, acaso, fizestes, a no ser a que contastes? 
KENT - Nenhuma. Mas por que traz o rei to pouca gente? 
BOBO - Se tivesses sido posto no tronco por essa pergunta, fora bem merecido. 
KENT - Por qu, bobo? 
BOBO - Vamos pr-te a aprender com uma formiga, que te ensinar que no inverno no h trabalho. 
Todas as pessoas que seguem o nariz so levadas pelos olhos, com exceo dos cegos, no havendo um 
s nariz, entre vinte, que no perceba quem est fedendo. Solta a roda grande, quando ela comear a rolar 
colina abaixo, se no quiseres quebrar o pescoo; mas quando a roda grande subir a colina, bem: que te
arraste atrs dela. Quando um sbio te der melhor conselho, d-lhe o meu de retorno. Quisera que s 
fosse seguido pelos velhos, por ser conselho de bobo. Quem a outrem serve e lucro tem em mira, e tudo o 
mais desleixa, se chove, apronta a trouxa e se retira, e no pego o deixa. Mas eu no fugirei; o bobo fica; 
seja o sbio fujo. Bobo se torna um biltre, quando estica; mas biltre o bobo, no. 
KENT - Onde aprendeste isso, bobo? 
BOBO - No foi no cepo, bobo. 
(Volta Lear, com Gloster.) 
LEAR - Recusam-se a falar-me? Esto doentes? Fatigados? Viajaram toda a noite? Meras tretas; 
imagens, to-somente, de revolta e abandono. Arranja-me outra resposta mais razovel. 
GLOSTER - Meu querido senhor, conheceis bem a natureza colrica do duque e como sempre 
persistente se mostra e irredutvel em quanto determina. 
LEAR - Vingana! Peste! Morte! Confuso! Colrica? Que natureza?  Gloster, escuta: falar quero, 
neste instante, com o Duque de Cornualha e sua esposa. 
GLOSTER - Pois no, senhor; j lhes mandei recado. 
LEAR - "J lhes mandei recado!" Entendes-me, homem? 
GLOSTER - Entendo, bom senhor. 
LEAR - O rei deseja conversar com Cornualha, o pai querido deseja conversar com a prpria filha; quer 
ser obedecido. J lhes deram semelhante "recado"? Sangue e vida! Colrico! O duque  mui colrico! 
Dizei ao duque ardente... No;  cedo. Pode ser que se encontre doente mesmo. A descuidar nos levam 
sempre as doenas dos deveres que impe, sempre, a sade. J no somos ns mesmos, quando, opressa, 
ordena a natureza ao prprio esprito que padea com o corpo. Esperar devo; combater quero este pendor 
violento que me leva a tomar o acesso mrbido pelo homem so. Que morra o meu prestgio! 
(Olhando para Kent.) 
Por que razo ele se encontra ali? Esse ato me persuade de que a ausncia do duque e da duquesa  
fingimento. Ponham logo meu criado em liberdade! Ide dizer ao duque e sua esposa que desejo falar-lhes 
neste instante; agora mesmo! Saiam para ouvir-me; se no, em frente aos aposentos deles irei tocar 
tambor de dar a morte ao sono com o barulho. 
GLOSTER - Quem me dera que entre vs tudo viesse a concertar-se! 
(Sai.) 
LEAR - Ai de mim! Sinto o corao subir. Para baixo, de novo! 
BOBO - Grita com ele, tio, como fazia a cozinheira com as enguias, ao p-las vivas na frigideira. 
Batia-lhes na cabea com uma vara e gritava-lhes: "Para baixo, mal-educadas! Para baixo!" No entanto, 
tinha um irmo que, por pura bondade, passava manteiga no feno do cavalo. 
(Entram Cornualha, Regane, Gloster e criados.) 
LEAR - Bom dia aos dois. 
CORNUALHA - E salve Vossa Graa. 
(Kent  posto em liberdade.)
REGANE - Fico alegre por ver Vossa Grandeza. 
LEAR - Sim, Regane, sei disso; como as causas tambm de pensar dessa maneira. Se o no ficasses, eu 
me divorciara da tumba de tua me como da de uma mulher adltera. (A Kent.) Ento, liberto? Depois 
falamos nisso. Minha cara Regane, ah! tua irm no vale nada.  Regane! a maldade corroedora ela 
amarrou aqui, como um abutre. 
(Indica o corao.) 
Mal te posso falar. No poderias conceber a maneira desumana... Ah, Regane! 
REGANE - Por obsquio, senhor, tende pacincia. Penso que estais to longe de apreciar-lhe todo o 
mrito, como de esquecer-se ela de seus deveres. 
LEAR - De que modo? 
REGANE - No posso crer que minha irm se tenha descuidado no mnimo de suas obrigaes. Se acaso, 
meu senhor, procurou restringir a turbulncia de vossos seguidores, deu-se tudo com bases tais e to 
recomendveis intenes, que de toda pecha a expungem. 
LEAR - Lano-lhe a maldio! 
REGANE - O senhor, j estais velho! A natureza chegou em vs ao seu confim postremo. Devereis ser 
guiado e governado por algum que, melhor do que vs mesmo, vossas necessidades compreendesse. 
Assim, vos peo, retornai para ela, senhor, e confessai que injusto fostes. 
LEAR - Eu, pedir-lhe perdo? Vede como isso vai bem com nossa casa: Amada filha, confesso que sou 
velho, sendo certo que a velhice  trambolho. Assim, de joelhos, 
(Ajoelha-se.) 
peo-vos conceder-me cama, roupa e um pouco de alimento. 
REGANE - Meu bondoso senhor, no prossigais. So descabidas essas momices. Retornai para ela. 
LEAR (levantando-se) - Jamais, Regane; ela cortou-me o sqito de metade dos homens, dirigiu-me 
olhares carrancudos, alcanando-me o corao com a lngua viperina. Que em sua fronte ingrata caiam 
todas as vinganas que o cu guardado tenha. Insuflai-lhe nos ossos jovens, ares pestilenciais, humores 
deformantes! CORNUALHA - Ora, senhor, que coisa! 
LEAR - Lanai-lhe, raios geis, vossas flamas ofuscantes nos olhos desdenhosos! Infectai-lhe a beleza, 
brumas densas aspiradas dos charcos e engendradas pelo potente sol, para que venha a abater-se-lhe o 
orgulho e encarquilhar-se. REGANE - Oh deuses abenoados! Iguais votos me fareis, quando vosso 
humor violento tomar conta de vs. 
LEAR - Jamais, Regane; jamais ters a minha maldio. Teu ser mui delicado no te leva a nenhuma 
aspereza. Os olhos dela so ferozes; os teus, porm, confortam, no causam queimaduras. No se casa 
com tua natureza rogar praga contra minhas vontades, reduzir-me o sqito, lanar-me termos speros, 
limitar-me a penso e, finalmente, ferrolhos antepor  minha entrada. No; mais do que ela sabes os 
deveres da natureza, obrigaes dos filhos, o que a delicadeza impe a todos e  gratido devemos. 
Esquecida no ests da metade do meu reino, que te entreguei por dote. 
REGANE - Retornemos ao assunto, senhor. LEAR - Quem ps meu homem no cepo? 
(Ouve-se toque de trombeta.)
CORNUALHA - Que trombeta ser essa? 
REGANE - Conheo o toque;  minha irm. Sua carta fica assim confirmada com a notcia de que viria 
aqui. Chegou a senhora? 
(Entra Osvaldo.) 
LEAR - Eis um escravo, cujo orgulho fcil e barato repousa nos favores instveis da senhora a que ele 
serve. Fora da minha vista, sacripanta! 
CORNUALHA - Que quer dizer com isso Vossa Graa? 
LEAR - Quem ao cepo prendeu este meu criado? Regane, espero que no saibas disto. Mas quem vem 
l? 
(Entra Goneril.) 
 cus, se amais os velhos, se com a obedincia vosso cetro brando se compadece, se tambm sois velho, 
tomai o meu partido e vinde pr-vos ao meu lado. 
(A Goneril.) No tens vergonha, acaso, de olhar para estas barbas?  Regane! tom-la pelas mos? 
GONERIL - Por que no h de faz-lo, meu senhor? Qual foi meu erro? Nem tudo  ofensa que a tolice 
julga e a loucura nomeia. 
LEAR -  flancos! duros sois por demais! Resistireis ainda? Por que no cepo foi parar meu homem? 
CORNUALHA - Fui eu que o pus a, senhor; mas suas desordens no faziam jus a tanta promoo. 
LEAR - Como assim! Fostes vs mesmo? 
REGANE - Por obsquio, meu pai; j que sois fraco, comportai-vos de acordo. Se at ao prazo final de 
vosso ms vos conformardes em voltar para a mana, e l ficardes, despedindo metade desse squito, 
vinde, ento, para mim. Agora me acho fora de casa, sem dispor dos meios necessrios a vosso 
tratamento. 
LEAR - Procur-la de novo? Cinqenta homens despedidos? Jamais! Preferiria abjurar todo abrigo e 
expor-me  prpria inimizade do ar, em companheiro transformar-me do lobo e da coruja, sob a dura 
presso da adversidade. Voltar para ela? Esse ardoroso Frana, que recebeu sem dote minha filha mais 
nova, para mim fora mais fcil diante do trono dele ir ajoelhar-me e, tal qual escudeiro, mendigar-lhe 
penso mesquinha que esta vida abjeta permita sustentar. Voltar para ela! Antes tornar-me escravo ou ser 
azmola deste palafreneiro detestvel. 
(Mostrando Osvaldo.) 
GONERIL - Senhor,  vossa escolha. 
LEAR - Filha, peo-te que no me deixes louco. No desejo, menina, incomodar-te por mais tempo. 
Adeus. No nos veremos nunca mais; nunca mais voltaremos a encontrar-nos. Mas s meu sangue, minha 
carne: filha. Ou melhor: uma doena em minha carne, a que forado sou a chamar minha; s um inchao, 
uma lcera pestosa, um carbnculo podre e tumefeito no meu sangue corrupto. Contudo, no quero 
repreender-te. Que a vergonha venha quando quiser; no vou cham-la. No pedirei ao portador de raios 
que troveje, nem nada a teu respeito direi de mal a Jove, o juiz supremo. Se puderes, emenda-te; melhora 
quando quiseres. Posso ser paciente. Posso ficar em casa de Regane com meus cem cavaleiros.
REGANE - Mais cuidado! No contava convosco, nem me encontro preparada para vos dar condigno 
acolhimento. Ouvi, senhor, a mana. Quem pe razo nesses acessos vossos facilmente conclui que j 
estais velho. Logo... Ela sabe o que convm ao caso. 
LEAR - Isso foi bem falado? 
REGANE - Quero cr-lo, senhor. Como! Cinqenta seguidores? No vos bastam? Quereis mais gente 
ainda? Precisareis de tantos? Sim, que os prprios perigos e as despesas esse nmero desaconselham. 
Como poderia haver paz numa casa entre to grande nmero de homens sob comando duplo?  difcil se 
no quase impossvel. 
GONERIL - Por que no podereis ser servido pela gente da mana ou pela minha? REGANE - Por que 
no, meu senhor? Se qualquer deles de vs se descuidasse, fora fcil repreend-los por isso. Se quiserdes, 
assim, morar comigo - e agora vejo que tal coisa  arriscada - pediria que trouxsseis apenas vinte e 
cinco. Para mais no terei lugar nem mesmo disposio. 
LEAR - Fui eu que vos dei tudo... 
REGANE - E em tempo certo o destes. 
LEAR - Institu-vos minhas depositrias e tutoras, reservando-me apenas uma escolta desse nmero. 
Como! Deveria procurar-vos, ento, com vinte e cinco? Regane, assim falastes? 
REGANE - E repito-o; nem mais um, meu senhor. 
LEAR - Certas criaturas boa aparncia apresentar conseguem, quando outras em maldade as sobrepujam. 
No sendo as piores, cabem-lhe elogios. Contigo ficarei; os teus cinqenta o dobro so dos vinte e cinco 
dela, e o seu amor tu vales duas vezes. 
GONERIL - Senhor, ouvi-me. Que necessidade tendes de vinte e cinco, dez, ou cinco pessoas para vos 
servir, em casa que dispe at mais do dobro disso para tratar de vs? 
REGANE - E por que de uma? 
LEAR - Oh! no faleis sobre a necessidade. Nossos mendigos mais necessitados muita coisa suprflua 
ainda possuem.  natureza concedei apenas o que ela prpria exige, e a vida humana to barata ser 
como a das feras. s uma dama. Se j fosse luxo andarmos aquecidos, no teria necessidade alguma a 
natureza dessas vestes luxuosas que em matria de aquecimento em nada te protegem. Mas a necessidade 
verdadeira...  cus, dai-me pacincia!  de pacincia que necessito agora.  deuses! vedes aqui um 
pobre velho, to pesado de anos que de cuidados, duplamente desgraado! Se acaso levantastes o corao 
das filhas contra os pais, no me deixeis to parvo que suporte tudo isso humildemente; nobre clera 
fazei que em mim desperte, sem deixardes que as armas da mulher, as gotas de gua, as faces varonis 
manchar me venham. No, bruxas desumanas! Tal vingana hei de tomar de vs, que o mundo inteiro... 
Farei tais coisas - quais, ainda o ignoro - que ho de ser o terror de toda a terra. Pensais talvez que vou 
derramar lgrimas? No, no hei de chorar. Tenho causas sobejas para tanto; mas antes de faz-lo, h de 
partir-se-me o corao em vinte mil pedaos. Bobo, vou ficar louco! 
(Saem Lear, Gloster, Kent e o bobo.) 
CORNUALHA - Recolhamo-nos; vai haver tempestade. 
(Ouve-se a tempestade a distncia.)
REGANE -  mui pequena a casa para comportar o velho e mais seus seguidores. 
GONERIL -  s dele toda a culpa. Privou-se do conforto, tendo, assim, de provar da prpria insnia. 
REGANE - De grado o acolheria; mas s ele, sem nenhum de seus homens. 
GONERIL -  o que eu penso, tambm. Mas onde est milorde Gloster? CORNUALHA - Acompanhou 
o velho. Ei-lo de volta. 
(Volta Gloster.) 
GLOSTER - Est furioso o rei. 
CORNUALHA - Para onde foi? 
GLOSTER - Pede cavalos; mas no sei para onde tenciona dirigir-se. 
CORNUALHA - Pois deixemo-lo; saber conduzir-se. 
GONERIL - No insteis, senhor, de jeito algum para que fique. 
GLOSTER - Oh cus! A noite vem baixando, e os ventos penetrantes j sopram com veemncia. Em 
muitas milhas em redor no se acha facilmente um arbusto. 
REGANE - Ora, senhor! os teimosos aprendem com os incmodos que a si mesmos procuram. Fechai 
logo vossas portas; os homens que o acompanham so capazes de tudo. O que eles podem induzi-lo a 
fazer - sendo de ouvidos to fceis de enganar - manda a prudncia que com razo temamos. 
CORNUALHA - Fechai logo vossas portas, senhor. Minha Regane vos d um bom conselho. A noite  
horrvel; sa da tempestade. Recolhamo-nos. 
(Saem.) 
ATO III 
Cena I 
Uma charneca. Tempestade, com troves e relmpagos. Entram Kent e um gentil-homem, que se 
encontram. 
KENT - Alm do tempo mau, quem est a? 
GENTIL-HOMEM - Algum inquieto como o prprio tempo. 
KENT - Conheo-vos. E o rei, que faz agora? 
GENTIL-HOMEM - Luta com os elementos agitados; manda ao vento que ao mar atire a terra, ou eleve 
as ondas crespas muito acima dos continentes, para que se mudem todas as coisas, ou de vez acabem; 
puxa os cabelos brancos que as rajadas impetuosas em seu furor apanham com cega raiva, reduzindo a 
nada; em seu mundo pequeno de homem, luta por zombar do conflito sempre mvel dos ventos e da 
chuva. Nesta noite, em que, depois de amamentar os filhos, a ursa no se levanta, e o leo e o lobo 
famintos sem molhar a pele ficam, cabea descoberta ele se agita,  destruio total jogando tudo.
KENT - E quem est com ele? 
GENTIL-HOMEM - O bobo, apenas, que tenta dissipar-lhe com gracejos a dor do corao to 
trabalhado. 
KENT - Conheo-vos, senhor; por isso atrevo-me, sob o penhor de tal conhecimento a vos contar um 
caso muito grave. H discrdia, conquanto ainda encoberta se ache de parte a parte pela astcia, entre 
Albnia e Cornualha. Eles possuem - o mesmo no se d com todos quantos a grande estrela exalta e pe 
num trono? - criados, ao parecer, mas que, de fato, so espias de Frana e informadores, e que se 
encontram sempre a par de tudo que aqui se passa: as rixas e as conjuras dos dois duques e, aps, o modo 
altivo que contra o velho rei tm revelado, ou algo porventura mais profundo de que seja tudo isso mero 
apndice: o certo  que um exrcito da Frana penetrou neste reino dividido, o qual o p firmou muito em 
segredo, valendo-se de nossa negligncia, no nosso melhor porto, e ora se encontra no ponto de mostrar 
os estandartes. Ora  convosco: se puderdes algo construir sobre as minhas referncias a ponto de ir a 
Dover sem demora, encontrareis decerto ali quem h de saber agradecer-vos, quando justo relato lhe 
fizerdes das tristezas desnaturais e em tudo abaladoras por que o rei tem passado. Por sangue e educao 
sou gentil-homem;  com conhecimento, pois, de causa, e confiana que disso vos incumbo. 
GENTIL-HOMEM - Falaremos sobre isso mais de espao. 
KENT - De forma alguma. Para convencer-vos de que eu sou muito mais do que pareo, ficai com o 
contedo desta bolsa. Se avistardes Cordlia - o que h de dar-se, ficai bem certo disso - apresentai-lhe 
este anel, que ela, ento, vos dir logo quem  o camarada que nesta hora ainda no conheceis. Mas que 
tormenta! Vou procurar o rei. 
GENTIL-HOMEM - Dai-me a mo. Nada mais quereis dizer-me? 
KENT - Pouco; porm, de fato, mais que tudo: Quando acharmos o rei - deveis, por isso, seguir por este 
lado; eu, por aquele - quem primeiro o encontrar grita para o outro. 
(Saem por lados diferentes.) 
Cena II 
Outra parte da charneca. A tempestade continua. Entram Lear e o bobo. 
LEAR - Ventos, soprai de arrebentar as prprias bochechas! Enraivai! Soprai com fora! Trombas e 
cataratas, derramai-vos at terdes coberto os campanrios e afogado seus galos! Sulfurosos raios, velozes 
como o pensamento, vanguarda dos coriscos que os carvalhos abrem de meio a meio, chamuscai-me a 
cabeleira branca! E tu, trovo de tudo abalador, achata a espessa redondeza do mundo, quebra os moldes 
da natureza e de uma vez desfaze todos os germes geradores do homem sem gratido. 
BOBO -  tio, mais vale gua benta no ptio de uma casa seca, do que toda esta gua de chuva ao ar 
livre. Vai para dentro, bom tio, e pede a bno de tuas filhas. Uma noite como esta no se apiada nem 
de sbios nem de bobos. 
LEAR - Deixa o vento roncar! Escarra, fogo! Jorra, chuva! Os troves, o vento, o fogo, minhas filhas no 
so. No vos acuso de ingratos, elementos. Nunca um reino vos dei, nem vos chamei sequer de filhos. 
No me deveis nenhuma obedincia. Que caia, pois, vosso prazer horrvel. Aqui me encontro, vosso 
escravo, um velho pobre, fraco, sem foras, desprezado. No entretanto, declaro-vos ministros servis, pois
com duas filhas perniciosas, travais vossas batalhas de alta origem contra uma fronte to encanecida e to 
velha como esta. Oh! Que vergonha! BOBO - Quem tem uma casa onde enfiar a cabea, dispe de um 
bom chapu. Quando a braguilha quer casa, sem que o dono tenha abrigo dos piolhos  a grande vasa, 
que isso  vida de mendigo. Quem pe o dedo do p onde tem o corao, vive a gemer - a-la-f! - por 
calos que insnia do, pois nunca ouve mulher bonita que no fizesse caretas ao espelho. 
(Entra Kent.) 
LEAR - Quero ser um modelo de pacincia; no direi nada. 
KENT - Quem est a? 
BOBO - Ora, uma majestade e uma braguilha, isto , um sbio e um bobo. 
KENT - Oh senhor! Vs aqui? Nenhuma coisa que da noite se agrada, se acomoda a uma noite como 
esta. Os cus furiosos metem medo at mesmo nos rondantes da escurido, retendo-os em seus antros. 
Desde que me fiz homem no me lembro de ter presenciado tantas faixas de fogo, tanto estouro de 
terrficos troves, tantos lamentos e bramidos dos ventos e da chuva. A natureza do homem no pode 
suportar o medo e a aflio que vm disso. 
LEAR - Grandes deuses, que tanto estrondo sobre ns retendes, agora procurai vossos imigos! Treme, 
malvado, em quem se ocultam crimes pela justia ainda no punidos! Mo sanguinria, oculta-te! 
Perjuro, tu tambm; como tu, falso virtuoso, que praticas o incesto! Em estilhaos arrebenta, bargante, 
que atentaste contra a vida de algum sob aparncia tranqila e sedutora! Atrocidades no fundo ocultas, 
estourai as capas que vos escondem e implorai as graas desses admoestadores pavorosos! Quanto a 
mim, sou mais vtima de culpa, do que mesmo culpado. 
KENT - Oh! que tristeza! Cabea descoberta! Meu gracioso soberano, aqui perto h uma cabana, que 
oferecer-vos pode algum abrigo contra o mau tempo. Recolhei-vos a ela, enquanto eu volto quela casa 
dura - mais dura do que as pedras de que  feita, e que, h momentos, quando eu pretendia saber notcias 
vossas, me negou t mesmo a entrada - para que lhes force a avara cortesia. 
LEAR - Sinto o esprito girar em torno. Vamos, meu pequeno! Como te sentes, caro? Muito frio? Eu 
tambm. Companheiro, onde  que h palha?  por demais estranha a arte dos pobres que faz preciosas 
as mais baixas coisas. Vossa cabana... Seja! Pobre bobo, tenho no corao um lugarzinho que se apiada 
de ti. BOBO - Se no perdeste de todo a mente, com hei com h, com tamanha chuva, com a prpria 
sorte fica contente, embora chova todos os dias. 
LEAR -  certo, meu pequeno; vamos, leva-nos para essa tal cabana. 
(Saem Lear e Kent.) 
BOBO - Eis uma bela noite para deixar fria uma cortes. Mas antes de sair quero fazer uma profecia: 
Quando por obras converter a Igreja e gua puser o dono na cerveja; quando o nobre for mestre do 
alfaiate, e a fogueira no mais o herege mate, mas apenas o amante apaixonado; quando s houver 
processo bem julgado, dvidas no tiver o cavaleiro e a calnia poupar o mundo inteiro; quando evitar o 
experto a turbamulta e a arca do avaro no ficar oculta; quando as alcoviteiras eloqentes construrem 
templos caros e imponentes: cair em confuso este reino de Albio. Ento ver quem vivo ainda estiver 
que com os ps andam o homem e a mulher. Esta profecia ser feita por Merlino, porque eu vivo antes do 
tempo dele. 
(Sai.)
Cena III 
Um quarto no castelo de Gloster. Entram Gloster e Edmundo. 
GLOSTER - Ah, Edmundo, Edmundo! No me agrada esse procedimento desnaturado. Quando lhes pedi 
permisso para apiedar-me dele, privaram-me do uso de minha prpria casa, proibindo-me, sob pena de 
seu perptuo descontentamento, de falar a respeito dele, de interceder a seu favor ou de ir-lhe em auxlio 
de qualquer maneira. 
EDMUNDO - Por demais selvagem e contrrio  natureza. 
GLOSTER - Acomoda-te; no digas nada. H diviso entre os duques, e pior do que isso. Esta noite 
recebi uma carta.  perigoso falar nisso. Tranquei-a no meu gabinete. Os sofrimentos por que o rei agora 
est passando, sero oportunamente vingados. Parte do exrcito j desembarcou; teremos de ficar do lado 
do rei. Vou procur-lo secretamente e ajud-lo. Ide conversar com o duque, para que no seja percebida 
minha caridade. Se ele perguntar por mim, estou doente e de cama. Ainda que eu venha a perder a vida - 
que  o menos com que estou ameaado -  preciso que o rei, meu velho amo, seja socorrido. H alguma 
coisa muito estranha em perspectiva, Edmundo. Aconselho-vos cautela. 
(Sai.) 
EDMUNDO - A caridade que te foi proibida ser comunicada logo ao duque, como a carta tambm, o 
que parece servio meritrio que me rende quanto meu pai perder, a saber: tudo. Exulta o moo, o velho 
fica mudo. 
(Sai.) 
Cena IV 
A charneca. Diante de uma choupana. Entram Lear, Kent e o bobo. 
KENT -  aqui, senhor. Meu bom senhor, entrai.  por demais severa a tirania da noite descoberta, para 
as foras de nossa natureza. 
(A tempestade continua.) 
LEAR - No; afasta-te! Desejo ficar s. 
KENT - Entrai aqui, senhor. 
LEAR - Quereis partir-me o corao? 
KENT - Primeiro partiria o meu. Bondoso senhor, entrai. 
LEAR - Estais fazendo grande cabedal desta chuva revoltada, que nos molha at os ossos.  que a sentes 
dessa maneira. Porm quando a doena maior penetra, as outras no se sentem. Se corres do urso, mas 
em tua fuga fores bater nas ondas rugidoras, voltars frente para a goela dele. Livre o esprito, o corpo  
delicado. A tempestade que na mente eu trago nada me deixa perceber por meio dos sentidos, afora o que 
ali bate: a ingratido filial. No fora o mesmo, se a boca decepar quisesse a mo que at ela se ala para 
aliment-la? Mas saberei tomar cabal vingana. Cessarei de chorar. Fechar-me a porta numa noite como 
esta! Mais! Despeja, que hei de agentar! E numa noite assim! Ah Goneril! Regane! Vosso velho pai, to 
bondoso, que vos dera tudo com franco corao! Oh! A loucura vem desse lado. Vamos evit-la. Sobre
isso, basta. 
KENT - Bem, milorde; entremos. 
LEAR - No; por favor, primeiro tu; procura tua comodidade. Este aguaceiro me impede de cuidar de 
muitas coisas que muito maior dor me causariam. Mas vou entrar. (Ao bobo.) Menino, vai na frente. 
Pobreza sem abrigo... Entra, entra logo. Rezo primeiro; dormirei depois. 
(O bobo entra na choupana.) 
Onde quer que estejais, pobres sem roupa, que os golpes suportais desta impiedosa tempestade, dizei-me: 
de que modo vossos flancos mirrados e as cabeas desprotegidas, vossos trapos ricos em furos e janelas 
ho de o corpo vos proteger numa estao como esta? Oh! muito pouco me ocupei com isso! Cura-te, 
fausto! Vai sentir o mesmo que os miserveis sentem, porque possas sobre eles derramar o teu suprfluo 
e os cus mostrar mais justos. 
EDGAR (dentro) - Pobre Tom! Braa e meia! Braa e meia! 
(O bobo sai a correr da choupana.) 
BOBO - No entres a, meu tio! H um esprito l dentro. Socorro! Socorro! 
KENT - D-me a mo. Quem est l? 
BOBO - Um esprito! Um esprito! Ele disse que se chama o pobre Tom. 
KENT - Quem s tu, que te pes a rosnar assim na palha? Vem para fora! 
(Entra Edgar, disfarado de demente.) 
EDGAR - Afastai-vos, que o imigo me acompanha. Atravs do espinheiro sopra o vento; v se te 
aqueces em teu leito frio. 
LEAR - Deste s tuas duas filhas tudo o que tinhas, para ficares desse jeito? 
EDGAR - Quem d alguma coisa para o pobre Tom? O maligno o levou atravs do fogo, atravs da 
flama, atravs do vau e do redemoinho, atravs do lamaal e do charco; ps facas embaixo de seu 
travesseiro e corda em sua cama; armou ratoeira em sua sopa; deixou-o orgulhoso por poder montar num 
cavalo baio troto, por cima das pontes de quatro polegadas, em perseguio da prpria sombra, como 
um traidor. Que sejam abenoados os teus cinco espritos. Tom est com frio. Oh! do d, do d, do d! 
Que o cu te ampare contra os furaces, estrelas funestas e malefcios. Fazei alguma caridade ao pobre 
Tom, que o demnio impuro atormenta. Poderia peg-lo agora, e aqui, e ali outra vez, e aqui... 
LEAR - Como! Suas filhas o trouxeram a isso? Nada te reservaste? Deste tudo? 
BOBO - No! Ele reservou para si um cobertor; caso contrrio, teramos do que nos envergonharmos. 
LEAR - Que caiam sobre tuas filhas todas as misrias que impendem do ar e ameaam os pecados dos 
homens! 
KENT - Senhor, ele no tem filhas. 
LEAR - Morre, traidor! Pois nada poderia rebaixar de tal modo a natureza, seno filhas ingratas. Ser 
moda que os pais, depois de despedidos, tenham to pouca pena de sua prpria carne? Castigo judicioso, 
que essa carne deu nascimento s filhas-pelicanas.
EDGAR - Pilicoc se achava empoleirado no monte Pilicoc! Al! Al! Oh oh! 
BOBO - Esta noite gelada vai acabar fazendo de ns todos bobos ou loucos. 
EDGAR - Acautela-te contra o maligno; obedece a teus pais; mantm tua palavra; no jures; no cometas 
adultrio com a esposa legtima do teu prximo; no enfeites tua morada com atavios vos. Tom est 
com frio. 
LEAR - Que eras antes? 
EDGAR - Um moo de servir, de corao e esprito altivos, que frisava os cabelos, trazia luvas no 
chapu, satisfazia a luxria da patroa, perpetrando com ela o ato das trevas; fazia tantos juramentos 
quantas palavras pronunciava, para viol-los ante a doce face do cu; um tipo que adormecia com planos 
de libertinagem e acordava para p-los em prtica. Amava de corao o vinho, os dados, com a mxima 
ternura; e com relao s mulheres, metia na massa o prprio turco; corao falso, ouvdos levianos, 
mos sanguinrias. Porco, na preguia; raposa, na astcia; lobo, na voracidade; co, na raiva; leo, na 
pilhagem. No deixes que o ranger dos sapatos e o rudo das sedas entregues s mulheres teu pobre 
corao. Mantm os ps fora dos bordis, as mos fora do colete, as pernas longe do livro do onzeneiro e 
desafia o maligno. O vento frio ainda sopra atravs do espinheiro, gritando zum, mum, ha h, no ni! ... 
Delfim, meu filho, meu filho! Cessa! Deixa-o trotar! 
(A tempestade continua.) 
LEAR - Estarias melhor na sepultura do que enfrentando com o corpo descoberto estes extremos da 
estao. No  o homem mais do que isto? Considerai-o bem. Ao verme no deves a seda, ao animal o 
abrigo, ao carneiro a l e ao gato de algalia o perfume. Ah! Dos presentes, trs somos adulterados; tu s a 
coisa em si. O homem sem atavios no passa de um pobre animal, nu e fendido como tu. Fora, fora com 
todos estes emprstimos! Vamos! Desabotoai-me aqui. 
(Rasga as vestes.) 
BOBO - Tio, por obsquio, fica quieto; a noite est muito ruim para nadarmos. Neste momento, um 
pequeno fogo em campo grande faria o efeito do corao de um velho libertino: uma faiscazinha de nada, 
e o resto do corpo, que nem gelo. V, a vem vindo um fogo ambulante. 
(Entra Gloster com uma tocha.) 
EDGAR -  o demnio impuro Flibbertigibbet; chega com o toque de apagar fogo e ronda at ao 
primeiro canto do galo; produz belidas e catarata, olho vesgo e beio-de-lebre; faz embolorar o trigo 
branco e atormenta a pobre criatura terrestre. Trs vezes So Vital percorre os trilhos, e achando a 
mula-sem-cabea e os filhos, mandou que ali parasse e preito lhe prestasse. Sai logo, bruxa! Deixa limpa 
a estrada! 
KENT - Como passa Vossa Graa? 
LEAR - Quem ? 
KENT - Quem est a? A quem procurais? 
GLOSTER - Quem Sois? Como vos chamais? 
EDGAR - O pobre Tom que se alimenta de rs nadadoras, sapos, girinos, lagartixas e gua; que na fria 
de seu corao, quando o inimigo imundo esbraveja, devora estrume de vaca como se fosse salada;
engole ratos velhos e cachorro pirento; bebe o manto verde do charco estagnado; que  chibateado de 
parquia em parquia, posto no cepo ou na priso; que j teve trs mudas para o dorso, seis camisas para 
o corpo, cavalo para montar e espada para carregar. H sete anos que Tom s se conserva com ratazanas, 
ratos e caterva. Tomai cuidado com o meu perseguidor. Fica quieto, Smulkin! Fica quieto, demnio! 
GLOSTER - Como! No tem Vossa Graa melhor companhia? 
EDGAR - O prncipe das trevas  um gentil-homem; chama-se Modo e Mahu. GLOSTER - A tal ponto, 
senhor, degenerados temos o sangue e a carne, que a odiar chegam a quem vida lhes deu. 
EDGAR - O pobre Tom est com frio. 
GLOSTER - Senhor, vinde comigo. No se dobra meu dever s sentenas implacveis de vossas filhas. 
Muito embora tenham dado ordem para que eu fechasse a porta, a esta noite terrvel entregando-vos, 
ousei vir procurar-vos, porque possa levar-vos onde h fogo e mesa pronta. 
LEAR - Primeiro permiti que a este filsofo dirija umas perguntas. Qual  a causa do trovo? 
KENT - Aceitai, senhor, o invite que ele vos faz;  casa recolhei-vos. 
LEAR - Uma palavra a este tebano sbio: em que vos aplicais? 
EDGAR - Em fugir do demnio e matar piolho. 
LEAR - Desejo vos pedir algo em segredo. 
KENT - Insisti outra vez, senhor, com ele, para abrigar-se. J revela indcios de que no tem bastante 
firme o esprito. 
(A tempestade continua.) 
GLOSTER - Poders censur-lo? Suas filhas querem a morte dele. Ah! o bom Kent! Disse que tudo a dar 
viria nisto. Pobre exilado! Asseveraste h pouco que o rei est ficando louco. Digo-te, que eu tambm 
estou quase nesse ponto. Tive um filho, que se acha desde pouco banido do meu sangue. Contra a minha 
vida tentou - agora mesmo, agora! - Amava-o como pai to ternamente jamais ao filho amou. Para ser 
franco contigo, a dor me perturbou o esprito. 
(A tempestade continua.) 
Que noite! Peo, instante, a Vossa Graa... 
LEAR - Peo perdo, senhor. Nobre filsofo, fazei-nos companhia. 
EDGAR - Tom est com frio. 
GLOSTER - Amigo, vem para a cabana; aquece-te. 
LEAR - Entremos todos. 
KENT - Por aqui, milorde. 
LEAR - Junto com ele; quero ficar sempre perto do meu filsofo. 
KENT - Fazei-lhe nisso a vontade, bom senhor, deixando-o levar esse homem. 
GLOSTER - Bem; cuidai vs dele.
KENT - Vamos, amigo; vem tambm conosco. 
LEAR - Vamos, bom ateniense. 
GLOSTER - Quietos! Vamos! 
EDGAR - O cavaleiro Rolo chegou perto do bastio dizendo fim, fu e fo! Sinto cheiro de breto. 
(Saem.) 
Cena V 
Um quarto no castelo de Gloster. Entram Cornualha e Edmundo. 
CORNUALHA - Hei de vingar-me antes de deixar a casa dele. 
EDMUNDO - As censuras, milorde, de que eu poderei ser alvo, por permitir que a natureza ceda a tal 
ponto  lealdade, deixam-me bastante apreensivo. 
CORNUALHA - Percebo agora que no foram absolutamente as ms inclinaes de vosso irmo que o 
levaram a procurar a morte dele, seno o meritrio impulso que se viu estimulado pela ruindade 
condenvel dele prprio. 
EDMUNDO - Como  prfido o meu destino, que me leva a arrepender-me de ser justo! Aqui est a carta 
de que ele falou; traz a prova de que  partidrio dos interesses da Frana. Oh cus! Quem me dera que 
no houvesse semelhante traio, ou que no fosse eu o delator! 
CORNUALHA - Vem comigo procurar a duquesa. 
EDMUNDO - Se for verdadeiro o contedo dessa folha, tendes em mos um negcio muito srio. 
CORNUALHA - Verdadeiro ou falso, ele te fez conde de Gloster. Descobre onde est teu pai, para que 
eu providencie logo sua priso. EDMUNDO ( parte) - Se eu o encontrar confortando o rei, isso vir 
reforar as suspeitas do duque. - Hei de manter-me na trilha da lealdade, por mais doloroso que seja o 
conflito entre ela e meu sangue. 
CORNUALHA - Depositarei em ti minha confiana; em meu amor encontrars um pai mais carinhoso. 
(Saem.) 
Cena VI 
Uma cabana prxima do castelo. Entram Gloster, Lear, Kent, o bobo e Edgar. 
GLOSTER - Aqui  melhor do que ao ar livre; aceitai de bom corao. Vou providenciar para o vosso 
conforto como me for possvel; no me demorarei. KENT - Toda a fora de seu esprito cedeu diante da 
indignao. Que os deuses recompensem vossa bondade. 
(Sai Gloster.) 
EDGAR - Frateretto me chama para dizer que Nero  um pescador no lago das trevas. Reza, inocente, e 
toma cuidado com o inimigo impuro. 
BOBO - Tio, por obsquio, dize-me se um louco  gentil-homem ou fazendeiro.
LEAR - Um rei! Um rei! 
BOBO - No; foi o fazendeiro que teve um filho gentil-homem; porque  preciso ser fazendeiro louco, 
para deixar que o filho se torne gentil-homem antes dele. 
LEAR - Oh! Se mil, a um s tempo, de espetos rubros, se atirassem sobre elas, assobiando... 
EDGAR - O demnio impuro est me mordendo as costas. 
BOBO - Louco  quem se fia na mansido do lobo, na sade do cavalo, no amor de um rapaz e no 
juramento de uma prostituta. 
LEAR - Assim farei. Vou intim-las j. 
(A Edgar.) 
Senta-te aqui, doutssimo juiz. (Ao bobo.) E vs, aqui, sbio senhor. E agora passemos s raposas. 
EDGAR - Vede! est ele com os olhos fixos! Precisas de olhos para o processo, madame? Vem para c, 
Bessy; pula o regato. 
BOBO - O barco dela  furado; por isso ela tem cuidado. Por que, ento, no arrisca a vir por cima? 
EDGAR - O demnio impuro persegue o pobre Tom sob a voz de um rouxinol; Hopdance grita na 
barriga de Tom por dois arenques brancos. Pra de coaxar, anjo negro! No tenho alimento para dar-te. 
KENT - Como passais, senhor? Ficai mais calmo. No quereis repousar no travesseiro? 
LEAR - Primeiro quero ver o julgamento. Trazei as testemunhas. (A Edgar.) Juiz togado, senta-te logo. 
(Ao bobo.) E tu, seu companheiro de jugo na Justia, ao lado dele. (A Kent.) Vs sois da comisso; 
sentai-vos a! 
EDDGAR - Procedamos com justia. Dormes ou velas, belo pastorzinho? teu anho est no trigo. Mas a 
um grito de tua rsea boca, no correr perigo. Prrr! O gato  cinzento. 
LEAR - Citei esta em primeiro lugar;  Goneril. Presto juramento diante desta honrada assemblia em 
como ela deu um pontap no pobre rei seu pai. 
EDGAR - Vinde mais para a frente, moa! Vosso nome  Goneril? 
LEAR - No poder neg-lo. 
BOBO - Peo desculpas, mas tomei-vos por um tamborete. 
LEAR - Aqui est a outra, cujo olhar de esguelha proclama o que no corao se abriga. Prendei-a logo! 
Armas! espada, fogo! A corrupo campeia! Juiz corrupto, por que deixaste que ela fosse embora? 
EDGAR - Abenoados sejam teus cinco espritos! 
KENT - Oh! piedade, senhor! Onde pusestes a pacincia de que falveis tanto, jurando conserv-la? 
EDGAR ( parte) - Tanto as lgrimas ficam do lado dele, que me ameaam estragar todo o plano. 
LEAR - Este cozinho, vede, e os outros, Gracioso, Fiel e Neve, se atiram contra mim.
EDGAR - Tom vai atirar-lhes sua prpria cabea. Fora daqui, mastins! De goelas brancas ou pretas, 
dentes sujos e caretas, mastim, galgo ou perdigueiro, molosso tardo ou ligeiro, de plo curto ou lanzudo, 
Tom vai dar cabo de tudo. Contra eles o coco atiro, fazendo-os correr em giro. Do, de, de, de. Sessa! 
Vamos, marchai para as festas de igreja, feiras e mercados. Pobre Tom, teu chifre est vazio. 
LEAR - Agora dissequem Regane, para ver o que brota de junto do corao dela. H alguma causa 
natural que torne endurecidos esses coraes? (A Edgar.) Vs, senhor, considero-vos um dos meus cem 
homens; apenas no me agrada o corte de vossas vestes. Ireis dizer-me que foram feitas  moda persa. 
Contudo, ser conveniente mud-las. 
KENT - Agora, meu bom senhor, ide deitar-vos um pouco, para repousar. 
LEAR - Nada de barulho, nada de barulho... Correi a cortina... Assim, assim, assim... Pela manh 
cearemos. Assim, assim, assim... 
BOBO - E ao meio-dia irei deitar-me. 
(Volta Gloster.) 
GLOSTER - Aproxima-te, amigo. Onde est o rei, meu mestre? 
KENT - Aqui, senhor; mas no o perturbeis; perdeu a razo. 
GLOSTER - Carrega-o, caro amigo, por obsquio. H uma conjura contra a vida dele. Aqui perto h uma 
maca; deita-o nela e corre, amigo, para Dover, onde irs achar boa acolhida e amparo. Levanta teu 
senhor; se demorares meia hora que seja, a vida dele, como a luta e a de todos os que o seguem, correm 
para uma perda inevitvel. Levante-o com bem jeito e vem comigo, que vou prover-te com bastante 
urgncia do que for necessrio. 
KENT - A natureza cansada adormeceu. Este repouso poderia deitar-te um linimento nos nervos 
torturados, que, na falta de boas condies, dificilmente chegaro a sarar. (Ao bobo.) Vamos, ajuda-me a 
carregar teu mestre. Tu no podes, tambm, ficar aqui. 
GLOSTER - Vamos logo, (Saem Kent, Gloster e o bobo, carregando Lear.) 
EDGAR - Ao veres teu senhor sofrer teus males, convences-te de que de nada vales. Quem sofre s, 
padece em pensamento, por na dita passada estar atento. O esprito no fica em desalinho, quando 
consegue a dor algum vizinho. Quo leve me parece o fardo ingente que me deixa encurvado e o rei 
gemente! Fez-me meu pai o que para ele as filhas. Tom, cuidado com as vozes! Tu te humilhas somente 
enquanto a falsidade dura te conservar desviado da ventura. Venha o que vier, contento que o rei fuja. 
Ateno! Ateno! 
(Sai.) 
Cena VII 
Um quarto no castelo de Gloster. Entram Cornualha, Regane, Goneril, Edmundo e criados. 
CORNUALHA - Parti com toda pressa para onde est milorde vosso marido e mostrai-lhe esta carta. O 
exrcito da Frana desembarcou. - Procurai o traidor Gloster. 
REGANE - Enforcai-o imediatamente.
GONERIL - Arrancai-lhe os olhos. 
CORNUALHA - Deixai-o aos cuidados do meu desprazer. Edmundo, fazei companhia a nossa irm; as 
vinganas que vamos ser forados a tomar de vosso pai traidor no so adequadas para vossa vista. 
Avisai o duque, para a casa de quem vos dirigis, que se prepare com a maior urgncia possvel, porque 
faremos o mesmo. Nossos correios no se pouparo, para manter entre ns o entendimento preciso. 
Adeus, querida irm; adeus, milorde de Gloster. 
(Entra Osvaldo.) 
Ento! Onde est o rei? 
OSVALDO - Levou-o para longe lorde Gloster. Cerca de trinta e cinco ou trinta e seis de seus homens, 
sequiosos de encontr-lo, o esperaram  porta, e em companhia de outros homens do lorde se fizeram no 
caminho de Dover, onde todos se jactam de possuir scios armados. 
CORNUALHA - Prepara a conduo para a senhora. 
GONERIL - Adeus, doce senhor; adeus, irm. 
CORNUALHA - Adeus, Edmundo. 
(Saem Goneril, Edmundo e Osvaldo.) 
Ide e trazei-me Gloster, esse traidor; os braos algemai-lhe como a um ladro e em nossa frente o ponde. 
(Saem outros criados.) 
Embora no possamos pronunciar-nos, sem as formas legais, contra sua vida, poder nossa fora cortesia 
fazer a nossa clera, o que os homens talvez censurem, mas obstar no podem. Quem vem l!  traidor? 
(Voltam os criados, com Gloster.) 
REGANE - Raposa ingrata!  ele mesmo. 
CORNUALHA - Amarrai-lhe os braos leves. 
GLOSTER - Que intendem Vossas Graas? Bons amigos, considerai que sois aqui meus hspedes. No 
me trateis, amigos, com desprezo. 
CORNUALHA - Amarrai-o, j disse! 
(Os criados amarram Gloster.) 
REGANE - Com mais fora! Traidor infecto! 
GLOSTER - Dama sem piedade, no sou o que dizeis. 
CORNUALHA - Nesta cadeira; amarrai-o! Vilo, vais ver agora... 
(Regane puxa a barba de Gloster.) 
GLOSTER - Pelos deuses bondosos,  ignomnia puxar-me pela barba. 
REGANE - To branco e to traidor! 
GLOSTER - Perversa dama, os fios que do queixo ora me arrancas, ho de ficar de p para acusar-te. 
Meus hspedes sois todos; no deveis com mos rapaces machucar-me os traos de dono desta casa. 
Que quereis? 
CORNUALHA - Vamos, senhor; dizei-me: que notcias recebestes de Frana?
REGANE - Sede breve no que disserdes, pois sabemos tudo. 
CORNUALHA - E que pacto firmastes com os traidores que saltaram h pouco em nosso reino? 
REGANE - A que mos entregastes o rei louco? Falai! 
GLOSTER - s mos me veio uma missiva baseada em conjeturas de pessoa neutra e imparcial, no de 
qualquer imigo. 
CORNUALHA - Astuciosa. 
REGANE - Traidora. 
CORNUALHA - E o rei, para onde o enviaste? 
GLOSTER - Para Dover. 
REGANE - Por que Dover? Avisado no foras, sob o risco... 
CORNUALHA - Por que Dover? Primeiro responde a isso. 
GLOSTER - Estou atado ao poste; -me impossvel fugir destes assaltos. 
REGANE - Por que Dover? 
GLOSTER - Porque essas unhas cruis no lhe arrancassem os pobres olhos, velhos e cansados, nem tua 
irm selvagem lhe enterasse no corpo ungido as presas de javardo. O mar em tempestade como a que ele 
suportou na cabea descoberta nesta noite infernal, se empolaria para apagar o fogo das estrelas. E o 
pobre corao, to velho, a chuva do cu fez aumentar! Se os prprios lobos, com um tempo destes, 
ululado houvessem diante de tuas portas, certamente terias dito: "Bom porteiro, vira depressa a chave!" 
Todas as crueldades ficariam riscadas. Mas ainda hei de ver a vingana de asas fortes cair sobre tais 
filhos. 
CORNUALHA - Veres? Nunca! Segurai a cadeira com firmeza. Vou pr os ps em cima de teus olhos. 
GLOSTER - Quem espera viver at  velhice, venha ajudar-me agora. Oh monstro! Oh deuses! 
( arrancado um dos olhos de Gloster.) 
REGANE - O outro tambm, para no rir daquele. 
CORNUALHA - Se virdes a vingana... 
PRIMEIRO CRIADO - Suspendei, milorde, a mo. Servi-vos desde criana; mas nunca vos prestei to 
bom servio, como ao pedir agora que parsseis. 
REGANE - Como, cachorro? 
PRIMEIRO CRIADO - Se trouxsseis barba no queixo eu a arrancara nesta briga. Que pretendeis? 
CORNUALHA - Um dos meus criados? Como! 
(Saca da espada.) 
PRIMEIRO CRIADO - Avanai, pois, e vos medi com a clera.
(Desembainha a espada; lutam.) 
(Cornualha  ferido.) 
REGANE - Empresta-me tua espada. Rebelar-se um rstico a este ponto! 
(Toma da espada e fere o criado pelas costas.) 
PRIMEIRO CRIADO - Oh! Estou morto! Ainda vos resta um olho, milorde, para v-lo desgraado. 
(Morre.) 
CORNUALHA - Porque no posso ver, faamos isto: fora, gelia vil! Qual  teu brilho neste momento? 
GLOSTER - Escuro em toda parte, desolao total. Onde se encontra meu filho Edmundo? Edmundo, 
acende as chispas da natureza e vinga este ato horrvel! 
REGANE - Vilo traidor, invocas quem te odeia. Foi ele prprio quem nos deu notcia de tua falsidade, 
ele em pessoa. E bom demais para de ti ter pena. 
GLOSTER - Oh! Que tolo que fui! Ento Edgar foi caluniado! Deuses bons, perdoai-me, e que ele possa 
prosperar. 
REGANE - Jogai-o fora da porta e que procure a estrada de Dover pelo cheiro. 
(Sai um criado conduzindo Gloster.) 
Ento, milorde, como estais? 
CORNUALHA - Recebi uma ferida. Senhora, acompanhai-me. Jogai fora esse vilo sem olhos; no 
monturo atirai esse escravo. Estou sangrando demais, Regane; veio-me este golpe muito fora de tempo. 
Dai-me o brao. 
(Sai Cornualha apoiado em Regane.) 
SEGUNDO CRIADO - No quero ter preocupao alguma com qualquer vilania, se este tipo vier ainda a 
acabar bem. 
TERCEIRO CRIADO - Se vida longa ela tiver e, ao fim, achar o curso comum da morte, todas as 
mulheres viraro monstros. 
SEGUNDO CRIADO - Vamos  procura do velho conde, para que levado seja pelo manaco para onde 
ele o determinar. Suas manias de vagante se prestam para tudo. 
TERCEIRO CRIADO - Vai; enquanto isso, arranjarei um pouco de linho e clara de ovo, para pr-lhe no 
rosto ensanguentado. O cu que o ajude! 
(Saem por lados diferentes.) 
ATO IV 
Cena I 
A charneca. Entra Edgar. 
EDGAR - Melhor assim: saber que  desprezado do que s-lo sob capa de lisonja. O mais nfimo ser, 
com mais desprezo tratado pela sorte, ainda conserva certa esperana e vive sem temores. S muda para
pior o que  perfeito; o pior volta  alegria. S bem-vindo, portanto, ar impalpvel que respiro! O infeliz 
que jogaste to por baixo a essas tuas rajadas nada deve. Mas quem vem vindo a? 
(Entra Gloster, conduzido por um velho.) 
Como! Meu pai, trazido por um pobre?  mundo! mundo! Sem tuas mutaes inesperadas que nos levam 
a odiar-te, nunca a vida chegara at  velhice. 
O VELHO -  bom senhor, de vosso pai e vosso fui rendeiro por volta de oitenta anos. 
GLOSTER - Bem; retira-te, bondoso amigo. Vai-te. Teus consolos bem algum me faro, mas poderiam 
prejudicar-te. 
O VELHO - No vereis a estrada. 
GLOSTER - No tenho estrada; no preciso de olhos. Tropecei, quando via. Muitas vezes j se tem visto 
o bem-estar deixar-nos preocupados e a necessidade redundar em proveito.  meu querido filho Edgar, 
alimento da iludida clera de teu pai, se eu tiver vida para te ver ainda, pelo tato, direi que achei os olhos 
O VELHO - Quem vem l? 
EDGAR ( parte) - Oh deuses! Quem diria: "No  possvel chegar a pior estado!" Nunca estive em 
piores condies. 
O VELHO -  Tom, o louco. 
EDGAR ( parte) - E mais ainda poderei descer. Nunca sofremos o pior, enquanto dizer podemos: "Isto 
 o pior de tudo". 
O VELHO - Para onde vais, amigo? 
GLOSTER -  algum pedinte? 
O VELHO - Pedinte, a um tempo, e louco. 
GLOSTER - Um pouco de razo ainda conserva, sem o que mendigar no poderia. Na noite que passou, 
da tempestade, vi um sujeito assim, que ao pensamento me trouxe que o homem no  mais que um 
verme. Lembrei-me de meu filho, muito embora dificilmente, ento, amigo dele meu esprito fosse. 
Depois disso aprendi muito. O que para os garotos so as moscas, ns somos para os deuses: matam-nos 
por brinquedo. 
EDGAR ( parte) - Que  que importa tudo isso? Triste  a profisso que obriga a zombar da desgraa, 
para incmodo de si prprio e dos outros. (A Gloster.) Salve, mestre! 
GLOSTER -  o tal mendigo nu? 
O VELHO - Ele, milorde. 
GLOSTER - Por favor, ento deixa-me. Se acaso quiseres, por amor de mim, buscar-nos daqui a uma 
milha ou duas, no caminho de Dover, faze-o por antigo afeto, e traze roupa para esta alma nua, a quem 
vou explicar que me conduza. 
O VELHO - Oh senhor! Ele  louco!
GLOSTER - Esse  o castigo do tempo, conduzir ao cego o louco. Faze o que eu disse, ou faze o que 
quiseres; mas, sobretudo, vai-te. 
O VELHO - Vou dar-lhe a minha melhor roupa, venha-me disso seja o que for. (Sai.) 
GLOSTER - Eh! Homem nu! EDGAR - O pobre Tom tem frio. ( parte.) -me impossvel fingir mais 
tempo. 
GLOSTER - Vem aqui, amigo. 
EDGAR ( parte) - Mas  preciso. - Abenoados sejam teus doces olhos, pois esto sangrando. 
GLOSTER - Conheces o caminho para Dover? 
EDGAR - Cancelas e porteiras, caminhos de cavalo e de p. Espantaram o esprito do pobre Tom. Filho 
do homem pio. Deus te preserve do demnio impuro. Cinco demnios entraram a um s tempo no pobre 
Tom: Obidicut, o demnio da luxria; Obbididance, prncipe do mutismo; Mahu, do roubo; Modo, do 
homicdio; e Flibbertigibbet, das caretas e contores, que desde ento deixou possessas as criadas e 
governantes. Salve, portanto, mestre! 
GLOSTER - Fica com esta bolsa,  tu, que as pragas do cu aos golpes todos humilharam. Minha 
desgraa mais feliz te deixa. Procedei sempre assim,  cus! Que o homem saturado de bens e de 
prazeres que deixa subservientes vossas mximas e nada v porque no sente nada, sinta depressa toda 
vossa fora. A diviso, assim, destri o excesso, tocando a todo o mundo alguma coisa. Conheces Dover? 
EDGAR - Sim, conheo, mestre. 
GLOSTER - L se encontra um penhasco de cabea alta e inclinada, que olha com receio para o abismo 
horroroso. Vamos; leva-me at ao rebordo dele, que hei de a tua misria remediar com algum objeto de 
valor que ora trago. Da em diante dispensarei teus passos. 
EDGAR - D-me o brao; o pobre Tom vai te servir de guia. 
(Saem.) 
Cena II 
Diante do palcio do Duque de Albnia. Entram Goneril e Edmundo. 
GONERIL - Sois bem-vindo, senhor. Estranho muito que o nosso brando esposo no nos tenha sado a 
receber. 
(Entra Osvaldo.) 
Que  de vosso amo? 
OSVALDO - Senhora, est l dentro; porm nunca homem nenhum mudou, como ele, tanto. Contei-lhe 
que desembarcaram foras. Sorriu  nova. Disse-lhe que vnheis para c; respondeu: "Tanto pior". Ao lhe 
falar da alta traio de Gloster e da lealdade de seu filho Edmundo, chamou-me de papalvo, 
declarando-me que eu havia tomado o pior partido. Tudo quanto ele detestar devia, lhe ensejava prazer. 
GONERIL (a Edmundo) - No  preciso, portanto, irdes mais longe. E seu esprito covarde e aterrorado 
que no ousa decidir-se por nada. No deseja sentir o ultraje que  resposta o force. Os votos que fizemos 
em caminho talvez se efetuaro. Voltai, Edmundo, para o mano; reuni seus homens logo e o comando
assumi de seu exrcito. Terei de me aprestar com nossas armas e pr na mo de meu marido a roca. Este 
fiel servidor ir servir-nos de intermedirio. Dentro de pouquinho - se algo arriscardes para vosso ganho - 
ordens recebereis de vossa dama. Usai isto. 
(D-lhe uma prenda.) 
Poupai qualquer discurso. Abaixai a cabea. Ora, este beijo se a falar se atrevesse, exalaria teu esprito 
s nuvens. Vai; compreende e passa bem. 
EDMUNDO - Confesso-me por vosso nas fileiras da morte. 
GONERIL - Meu carssimo Gloster! 
(Sai Edmundo.) 
Oh! Que distncia vai de um homem para outro! Bem mereces os servios de uma mulher. Meu bobo  
que me usurpa presentemente o leito. 
OSVALDO - A vem meu amo. 
(Sai.) 
(Entra Albnia.) 
GONERIL - Antes eu merecia um assobio. 
ALBNIA -  Goneril, digna no sois da poeira que vos atira ao rosto o vento rude. Inspira-me pavor 
vosso carter. Quando renega um ser a prpria origem, em si mesmo contido no prossegue. Quem se 
arranca a si prprio e se desgalha da seiva substancial,  inevitvel que a secar venha e pela morte caia. 
GONERIL - Basta; o texto  cretino. 
ALBNIA - Para o baixo o saber e a bondade so mesquinhos. S a si mesma aprecia a sujidade. Que 
perpetrastes? Tigres, sim, no filhas: que fizestes? Um pai, um velho afvel, cuja figura rgia at mesmo 
um urso preso  corda afagara, por vs duas - degeneradas! brbaras! - lanado foi  loucura. Como se 
compreende que meu bondoso irmo o permitisse, um nobre, um homem que por ele prprio fora 
beneficiado a mos repletas? Se o cu no enviar logo seus espritos visveis para que aqui em baixo 
venham reprimir essas vis atrocidades, ser fatal: vo devorar-se os homens uns aos outros, como os 
monstros do abismo. GONERIL - O sujeito de fgado de leite, com rosto para receber pancada e fronte 
para insultos! No tens olhos que possam distinguir a honra do insulto. Desconheces que so somente os 
tolos que mostram compaixo do celerado, quando a pena recebe, antes de tempo ter de fazer o mal. 
Onde se encontra teu tambor? J desfralda os estandartes a Frana em nossa terra silenciosa. Teu 
matador, com elmo empenachado, te ameaa, e tu, meu tolo moralista, permaneces sentado e 
choramingas: "Ah! Por que fez ele isso?" 
ALBNIA - Olha em ti prpria, demnia! A original deformidade no  to repelente nos demnios, 
como numa mulher. 
GONERIL - Oh tolo tmido! 
ALBNIA - Cria vergonha, criatura falsa, que de ti prpria retiraste a mscara, e cessa de animalizar os 
traos! Se me ficasse bem deixar que ao sangue as mos obedecessem, mui capazes seriam de quebrar-te 
os ossos todos e lacerar-te as carnes. Mas embora sejas o prprio diabo, ora te ampara a forma de mulher. 
GONERIL - Como valente se tornou num instante! 
(Entra um mensageiro.)
ALBNIA - Que h de novo? 
MENSAGEIRO - Senhor, morreu o duque de Cornualha. Matou-o um criado, quando pretendia arrancar 
o segundo olho de Gloster. 
ALBNIA - Como! Os olhos de Gloster? 
MENSAGEIRO - Um dos prprios servidores, por ele mesmo criado, se ops ao ato, a espada ento 
sacando contra seu grande mestre, o qual, colrico contra ele se lanou e o prostrou morto, no, porm, 
sem aquele fatal golpe que depois o matou. 
ALBNIA - Isso demonstra que morais a em cima,  Justiceiros! para punirdes com tamanha pressa os 
crimes c de baixo. Mas  certo que perdeu o outro olho o pobre Gloster? 
MENSAGEIRO - Ambos, senhor. Resposta urgente exige, senhora, esta missiva. Vem da parte de vossa 
irm. 
GONERIL ( parte) - Agrada-me isso a meias. Mas estando viva e ao lado dela meu Gloster se 
encontrando,  bem possvel que os castelos de minha fantasia esmagar venham minha vida odiosa. 
Porm por outro lado essa notcia no me parece m. 
(Ao mensageiro.) 
Vou l-la e logo responderei. 
(Sai.) 
ALBNIA - E onde se achava o filho, no momento em que os olhos lhe arrancaram? 
MENSAGEIRO - Para c tinha vindo com a senhora. 
ALBNIA - Mas aqui no se encontra. 
MENSAGEIRO - No, milorde; encontrei-o de volta novamente. 
ALBNIA - Soube ele dessa infmia? 
MENSAGEIRO - Sim, bondoso senhor; o delator foi ele prprio, tendo sado para que o castigo tivesse 
livre curso. 
ALBNIA - Gloster, vivo para te dar os agradecimentos pelo amor que mostraste ao rei e para vingar 
teus olhos. Vem aqui, amigo; conta o mais que souberes.` 
(Saem.) 
Cena III 
O acampamento francs, perto de Dover. Entram Kent e um gentil-homem. 
KENT - Por que o rei da Frana retornou com tanta pressa? Sabeis a razo? 
GENTIL-HOMEM - Deixou em suspenso algum assunto de Estado, que o preocupa desde que de l 
partiu e que, importando para o reino muito temor e perigo, imps como necessidade urgente a volta do 
rei. 
KENT - Quem deixou ele atrs como general?
GENTIL-HOMEM - O Marechal de Frana, Monsieur La Far. 
KENT - Vossas cartas arrancaram da rainha alguma demonstrao de tristeza? 
GENTIL-HOMEM - Pois no, senhor; tomou-as e na minha presena as leu. De quando em quando 
lgrimas as faces delicadas lhe sulcavam. Parecia a rainha da tristeza que, tal como os rebeldes, 
procurava domin-la de vez. 
KENT - Oh! comoveu-se! 
GENTIL-HOMEM - Mas sem ficar colrica; a pacincia e a dor lutavam para apresent-la sob o mais 
grato aspecto. Com certeza j vistes sol e chuva ao mesmo tempo; pois nela mais encantadores ainda 
eram o riso e o choro. Os sorrisinhos graciosos que na boca lhe brincavam, pareciam no ter 
conhecimento dos hspedes dos olhos, que deixavam a grata hospedaria como prolas que caem de 
diamantes. Em resumo: a tristeza seria raridade muito querida, se ficasse em todas as pessoas to bem. 
KENT - No fez perguntas? 
GENTIL-HOMEM - Sim, suspirou por uma ou duas vezes o nome "pai", gemendo, dolorida, como se o 
corao ele abafasse. Clamava: "Irms! Vergonha das mulheres! Irms! Kent! Meu pai! Como! De noite? 
Na tempestade? A compaixo  um mito!" A gua benta, depois, cair deixando dos olhos celestiais, que 
lhe os queixumes umedeciam, sbito partiu-se para lutar sozinha com sua mgoa. 
KENT - So os astros, os astros l de cima, que determinam nossas condies; se no, o mesmo par no 
poderia filhos gerar assim to diferentes. Falastes-lhe depois? 
GENTIL-HOMEM - No. 
KENT - E isso tudo se deu antes da volta do monarca? 
GENTIL-HOMEM - No; depois. 
KENT - Muito bem, senhor; o pobre e inditoso Lear se acha na cidade. Por vezes, quando est mais bem 
disposto, ocorre-lhe a razo de nossa vinda. Porm de modo algum quer ver a filha. 
GENTIL-HOMEM- Por qu, meu bom senhor? 
KENT - Vergonha extrema tanto o deprime - a rispidez com que ele privou da bno sua prpria filha, 
entregando-a a acidentes estrangeiros e transferindo a bela herana dela para as irms de corao canino - 
tudo isso o corao de tal maneira com dardo venenoso lhe transpassa, que uma vergonha abrasadora 
longe de Cordlia o detm. 
GENTIL-HOMEM - Ah! pobre rei! 
KENT - E nada ouvistes sobre os dois exrcitos, de Cornualha e de Albnia? 
GENTIL-HOMEM - Esto em marcha. 
KENT - Pois muito bem, senhor; vou conduzir-vos a nosso mestre Lear, l vos deixando para tratardes 
dele. Alguns negcios de importncia a ficar me obrigam ainda mais algum tempo oculto. Porm logo 
que eu revelar quem sou, no tereis causa de vos arrepender desta amizade. Por obsquio, segui-me. 
(Saem.)
Cena IV 
O mesmo. Uma tenda. Entram com toque de tambor e bandeiras desfraldadas Cordlia, o mdico e 
soldados. 
CORDLIA -  ele mesmo, ai de mim! Neste momento foi visto, to furioso como o oceano revoltado, a 
cantar alto e sozinho, coroado de spera fumria, urtiga, cicuta, cardamina, pegamassa, joio, ciznia e 
quanta erva daninha viceja em nosso trigo alimentcio. Mandai cem homens; que examinem jeira por 
jeira da lavoura j crescida, e a nossa vista o tragam. 
(Sai um oficial.) 
Com que meios conta a sabedoria humana, para restituir-lhe a razo? Quanto possuo ficar sendo de 
quem quer que o cure. 
O MEDICO - H recursos, senhora. A ama de nossa natureza  o repouso, justamente o de que ele 
carece, o que  possvel nele obter pela ao de muitos simples que baixaro a plpebra da angstia. 
CORDLIA - Surgi com minhas lgrimas, segredos abenoados, virtudes ainda ocultas da natureza! 
Vinde em nosso auxlio, remediando a desgraa do bom velho! Procurai-o depressa! Procurai-o, antes 
que seu furor desordenado lhe dissolva a existncia carecente de eficaz direo. 
(Entra um mensageiro.) 
MENSAGEIRO - Novas, senhora! As foras da Bretanha se aproximam. 
CORDLIA - Disso conhecimento j tivemos, e  sua espera estamos.  a tua causa, querido pai, que eu 
sirvo. Esse o motivo de ter-se o grande Frana de meu choro apiedado e de meu luto. A vazia ambio 
no foi que o brao nos armou para a luta, mas apenas o amor, o terno amor, bem como a causa de nosso 
idoso pai. Pudesse eu v-lo dentro de pouco e ouvi-lo! 
(Saem.) 
Cena V 
Um quarto no castelo de Gloster. Entram Regane e Osvaldo. 
REGANE - Mas as foras do mano esto em campo? 
OSVALDO - Sim, senhora. 
REGANE - E ele prprio  frente delas? 
OSVALDO - Com muita relutncia; vossa mana  melhor combatente. 
REGANE - Lorde Edmundo no falou com vosso amo em casa deste? 
OSVALDO - No, senhora. 
REGANE - Qual pode ser o assunto da carta dela, ento? 
OSVALDO - No sei, senhora. 
REGANE -  certeza ter sido enviado em muito sria misso. Foi erro indesculpvel deixar Gloster com
vida, aps os olhos lhe termos arrancado. Onde aparece levanta os coraes, contra ns todos. Edmundo, 
quero crer, compadecido de sua dor, foi dar remate logo a sua vida enoitada e, ao mesmo tempo, tentar 
saber das foras do inimigo. 
OSVALDO - Preciso partir logo, para a carta, senhora, lhe entregar. 
REGANE - As nossas tropas partiro amanh. Fica conosco, pois no h segurana nas estradas. 
OSVALDO - Senhora, no  possvel; a patroa confia em minha diligncia nisso. 
REGANE - Qual a necessidade que ela tinha de escrever a Edmundo? No podeis transmitir 
verbalmente seu recado? Talvez... Alguma coisa... Como posso sab-lo? Amar-te-ia imensamente se 
permitisses que eu abrisse a carta. 
OSVALDO - Preferira, senhora... 
REGANE - No ignoro que vossa ama no gosta do marido. Tenho certeza disso. Quando da ltima vez 
ela esteve aqui, lanou estranhos olhares, eloqentes sobremodo, para o nobre Edmundo. Confidente dela 
sei bem que sois. 
OSVALDO - Como! Eu, senhora? 
REGANE - Sei o que estou dizendo: confidente, tenho certeza disso. Mas sugiro-vos aceitar meu 
conselho. Meu marido faleceu; eu e Edmundo j falamos a esse respeito, sendo mais razovel, assim, que 
ele me pea a mo, deixando de lado a mana. Deduzi o resto. Se o encontrardes, dai-lhe isto, por 
obsquio. E quando conversardes com vossa ama sobre este assunto, peo concitarde-la a readquirir sua 
usual prudncia. Portanto, passai bem. Se vierdes a encontrar o traidor cego, ganhar muito quem der 
cabo dele. 
OSVALDO - Oh! Quem dera que o visse! Assim, mostrara de que lado me encontro. 
REGANE - Passai bem. 
(Saem.) 
Cena VI 
Regio perto de Dover. Entram Gloster e Edgar vestido como campons. 
GLOSTER - Quando estarei no cimo da colina? 
EDGAR - J estais subindo. Vede nosso esforo. 
GLOSTER - Tenho a impresso de que o terreno  plano. 
EDGAR - Horrivelmente abrupto. No ouvis o barulho do mar? 
GLOSTER - No, em verdade. 
EDGAR - E que os outros sentidos tendes fracos pelo que os olhos sofrem. 
GLOSTER -  possvel. Parece-me que tens a voz mudada e que com mais sentido agora falas e melhor 
expresso.
EDGAR -  puro engano de vossa parte; em nada estou mudado, se no for nestas vestes. 
GLOSTER - No; parece-me que te exprimes melhor. 
EDGAR - Vamos, senhor; eis o lugar. Chegamos. Ficai quieto. Como  terrvel!  de dar vertigens olhar 
nesta distncia para baixo. Como os corvos e as gralhas que transvoam o ar intermdio ficam pequeninos 
como besouros! V-se  meia altura, suspenso, um homem que procura funcho. Profisso arriscada! A 
impresso tenho de que ele  do tamanho da cabea. Os pescadores que andam pela praia parecem-se 
com ratos; a barcaa ali ancorada, to pequena se acha como o prprio escaler, e este se encontra 
reduzido a uma bia, pequenina demais para ser vista. As marulhosas vagas que batem nos inumerveis e 
preguiosos seixos no se fazem ouvir de tanta altura. -me impossvel olhar mais tempo assim, pois 
tenho medo de vir a ter vertigens, atirando-me a vista de cabea para baixo. 
GLOSTER - Coloca-me no ponto em que te encontras. 
EDGAR - Dai-me a mo; s um passo vos separa da borda extrema. Por quanto h debaixo da lua, eu no 
saltara dessa altura. 
GLOSTER - Solta-me a mo; recebe esta outra bolsa; dentro dela h uma jia que merece ficar com 
algum pobre. Os deuses todos e as fadas te protejam. Vai-te embora; dize adeus, pois desejo ouvir teus 
passos. 
EDGAR - Passai bem, bom senhor. 
GLOSTER - Agradecido de todo corao. 
EDGAR ( parte) - A brincadeira que fao com a desgraa dele, visa, to-somente, cur-lo. 
GLOSTER -  deuses grandes, renuncio a este mundo e, em vossa vista, paciente, me despojo do meu 
grande sofrimento! Pudesse eu suport-lo por mais tempo, sem luta abrir com vossa vontade irresistvel, 
este abjeto morro da natureza se deixara consumir at ao fim. Se ainda com vida estiver meu Edgar, oh! 
abenoai-o! E agora, amigo, adeus. 
(Cai para a frente.) 
EDGAR - Adeus, senhor; j fui embora. ( parte.) Conceber no posso como a imaginao roubar 
consegue da vida a rara jia, quando a prpria vida se presta ao roubo. Se se achasse onde pensava estar, 
neste momento pensar j no pudera. Vivo ou morto? (A Gloster.) Ento, senhor! Amigo! Estais me 
ouvindo? Poderia morrer... Mas no; revive. Que sois, senhor? Dizei-me. GLOSTER - Vai-te embora e 
deixa-me morrer. 
EDGAR - Se algo mais fosses do que ar, teia de aranha, leve pluma, caindo assim de tantas braas do 
alto, partido j estarias como um ovo. Mas respiras, possuis pesado corpo, no perdes sangue, ests 
inteiro, filas. Dez mastros superpostos no bastaram para medir a altura de onde caste 
perpendicularmente. Verdadeiro milagre  tua vida. Vamos, fala! 
GLOSTER - Mas eu ca ou no? 
EDGAR - Sim, l do pico desta penha calcria. Olha para o alto; ver e ouvir no se pode a cotovia de 
garganta estridente. Olha para o alto!
GLOSTER - Ai de mim! No tenho olhos!  negada  desgraa o benefcio de pr termo com a morte  
prpria angstia. Era consolo para o sofrimento poder lograr a raiva do tirano e frustrar seus intentos 
orgulhosos. 
EDGAR - Dai-me o brao. De p! Ento, e agora? Sentis as pernas? Eis-vos levantado. 
GLOSTER - Bem; muito bem. 
EDGAR - Tudo isso  muito estranho. Que era que estava no alto do penhasco e se apartou de vs? 
GLOSTER - Um miservel. Um mendigo infeliz. 
EDGAR - Daqui debaixo onde me achava, pareciam duas luas os olhos dele. Dotado era de mil narizes, 
cornos retorcidos e ondeados como os sulcos do mar bravo. Decerto era um demnio. Por tudo isso, 
lembra-te, feliz pai, que os deuses claros que da importncia dos mortais constroem toda sua glria, a 
vida te salvaram. 
GLOSTER - Agora penso nisso; de hoje em diante pretendo suportar o sofrimento at que por si mesmo 
ele me grite: "Basta! Basta!" e perea. Por um homem tomei a coisa a que vos referistes. Dizia muitas 
vezes: "O demnio!" Foi ele que me ps naquela ponta. 
EDGAR - Possas agora ter s pensamentos tranqilos e confiantes. Mas, que vejo! Quem vem a 
(Entra Lear, fantasticamente enfeitado com flores.) 
Jamais a s razo vestir seu senhor dessa maneira. 
LEAR - No; no podero pegar-me por cunhar moedas; sou o rei. 
EDGAR - Oh espetculo de transpassar o corao! 
LEAR - Nisto a natureza sobrepuja a arte. Eis vosso soldo. Aquele sujeito maneja o arco como se fosse 
um espantalho... Cortai-me uma jarda de pano. Vede! Um rato! Paz! Paz! Este pedao de queijo frio 
resolver o assunto. Eis minha luva; medir-me-ei com um gigante. Trazei as alabardas escuras. Oh! 
Bonito vo, passarinho! No alvo! No alvo, hu! A senha, vamos! 
EDGAR - Doce mangerona. 
LEAR - Passai. 
GLOSTER - Conheo essa voz. 
LEAR - Ah! Goneril de barba branca! Adularam-me como um co e me disseram que os plos brancos 
de minha barba nasceram antes dos pretos. Responder "sim" e "no" a tudo o que eu dizia! "Sim" e "no" 
ao mesmo tempo no era boa teologia. No dia em que a chuva veio para molhar-me e o vento para me 
fazer bater o queixo, e em que o trovo se recusava a obedecer-me, foi quando as encontrei; foi quando 
lhes percebi o cheiro. Ide embora; no tm palavra. Disseram-me que eu era tudo.  mentira! No estou  
prova de febre. 
GLOSTER - Lembro-me dessa voz perfeitamente. No  o rei? 
LEAR - Rei da cabea aos ps. Vede os vassalos como tremem, quando fito neles os olhos. Ora apraz-me 
perdoar a este homem. Qual o crime dele? Adultrio? No morrers! Morrer por adultrio? No; isso faz 
o pintassilgo, e  minha vista a mosca dourada  libertina. Porque o filho bastardo do bom Gloster foi
melhor para o pai que minhas filhas lealmente geradas. A vontade, luxria, em toda parte! Preciso de 
soldados. Vede aquela senhora sorridente, cujo rosto anuncia pura neve na unio das coxas. S virtude 
mostra, sacudindo a cabea sempre que ouve o nome do prazer. O furo e o corcel arrebatado no 
revelam mais lbrico apetite. Abaixo da cintura so centauros, muito embora mulheres para cima. At  
cintura os deuses  que mandam; para baixo, os demnios. Ali  o inferno, escurido, abismo sulfuroso, 
calor, fervura, cheiro de podrido... Xi! Xi! P!  bondoso boticrio, d-me uma ona de almscar, para 
eu temperar a imaginao. Aqui tens dinheiro. GLOSTER - Deixai-me beijar essa mo. 
LEAR - Primeiro deixai que a limpe; cheira a mortalidade. 
GLOSTER -  arruinada pea da natura! O imenso mundo h de gastar-se todo, reduzindo-se a nada. 
Reconheces-me? 
LEAR - Lembro-me perfeitamente de teus olhos. Ests piscando para mim? No, Cupido cego; por 
mais que faas, no chegarei a amar-te. L este desafio; observa bem o trao das letras. 
GLOSTER - Se outros tantos sis fossem, no as vira. 
EDGAR( parte) - Se mo dissessem, no o acreditara. No entanto  certo e o corao me parte. 
LEAR - L! 
GLOSTER - Como! Com as rbitas apenas? 
LEAR - Oh! oh! Alcanastes-me nesse ponto? Nem olhos na cabea, nem dinheiro na bolsa? Tendes os 
olhos pesados e a bolsa leve; no entanto, podeis ver como vai o mundo. 
GLOSTER - Vejo-o porque o sinto. 
LEAR - Como! Estais louco! A gente pode ver sem olhos como vai o mundo. Olha com as orelhas; v 
como aquele juiz invectiva contra um simples ladro. Escuta aqui, s uma palavrinha ao ouvido. Muda 
de lugar... Um, dois, trs! E ago ra: qual  o ladro? Qual  o juiz? J viste um cachorro de fazendeiro 
ladrar para um mendigo? 
GLOSTER - J, sim senhor. 
LEAR - E a criatura fugir do mastim? Nisso poders contemplar a grande imagem da autoridade: um 
cachorro no desempenho de suas funes  obedecido. Oficial de justia desonesto, suspende a mo 
sangrenta! Por que aoitas essa pobre rameira? Vira contra ti prprio essa chibata. Ests ardendo de 
desejos de com ela realizares o ato por que a castigas. O onzeneiro pe na forca o ladro. As faltazinhas 
se deixam ver nos furos dos andrajos; mas as togas e as peles tudo encobrem. Forra de ouro o pecado, e a 
forte lana da Justia se quebra sem feri-lo; 
cobre-o de trapos, e uma simples palha vibrada por pigmeu vai transpass-lo. Ningum comete falta,  o 
que te afirmo; ningum. A todos sirvo de fiador. Podes acreditar-me, amigo; fala-te quem fora tem para 
fechar a boca da acusao. Arranja umas lunetas e, como vil poltico, imagina ver coisas que no vs. 
Bum, bum, bum, bum! Tirai-me as botas. Fora! Fora!... Assim... 
EDGAR ( parte) - Que mistura de senso e de incoerncia! A razo na loucura. 
LEAR - Toma meus olhos, se chorar desejas minha infelicidade. Sei de sobra quem s. Teu nome 
Gloster. Pois bem sabes: ao respirarmos pela vez primeira, choramos e gememos. Vou fazer-te sobre isso 
um bom sermo; s, pois, atento. 
GLOSTER - Oh dia triste! 
LEAR - Mas nascemos, choramos por nos vermos neste grande tablado de dementes. Que bela forma de 
chapu! Seria idia mui sutil pr ferraduras de feltro nos cavalos de uma tropa. Vou tent-lo; e, uma vez 
caindo em cima de meus genros: matar, matar, matar! 
(Entra um gentil-homem, com criados.) 
GENTIL-HOMEM - Oh, ei-lo aqui! Com jeito segurai-o. Meu senhor, vossa filha muito amada... 
LEAR - No h socorro! Como! Prisioneiro? Sou realmente joguete da fortuna. Tratei-me bem; 
pagar-vos-ei resgate. Trazei-me um cirurgio, pois tenho o crebro muito ofendido. 
GENTIL-HOMEM - Haveis de ter de tudo. 
LEAR - Ningum vem ajudar-me? Estou sozinho? Isso em homem de sal mudara um homem, para fazer 
de irrigador os olhos, sim, e a poeira do outono deixar mida. 
GENTIL-HOMEM - Meu bom senhor... 
LEAR - Morrerei como bravo, como noivo... Como! Jovial hei de mostrar-me. Vamos! Sou rei, meus 
mestres; ignorais tal coisa? 
GENTIL-HOMEM -  rei notvel, a quem muito amamos. 
LEAR - Ento ainda h vida. Se a alcanardes, h de ser na carreira. S, s, s!... 
(Sai; os criados o acompanham.) 
GENTIL-HOMEM - Lastimoso j fora este espetculo no mais nfimo ser e desgraado. Num rei, no 
cabe no discurso humano. Uma filha ainda tens que a natureza limpa da maldio geral que as outras 
fizeram vir sobre ela. 
EDGAR - Salve, senhor. 
GENTIL-HOMEM - Senhor, o cu vos guarde. Que desejais? 
EDGAR - Ouvistes, porventura, falar de uma batalha a ser travada? 
GENTIL-HOMEM -  certo e mui sabido. Todo o mundo que sons distingue, ouviu falar sobre isso. 
EDGAR - Mas, por obsquio: a que distncia se acha o outro exrcito? 
GENTIL-HOMEM- Perto, e vem com pressa. A vista surgir dentro de uma hora;  o que se espera. 
EDGAR - Agradecido.  tudo. 
GENTIL-HOMEM - Muito embora a rainha aqui se encontre por um motivo especial, o exrcito dela 
avanou. 
EDGAR - Bem; muito agradecido. 
(Sai o gentil-homem.)
GLOSTER -  deuses sempre bons! tirai-me a vida, no permitindo que meu mau esprito tentar me 
venha novamente, para que  vossa revelia eu pea a morte. 
EDGAR - Pai, rezais muito bem. 
GLOSTER - Quem sois, amigo? 
EDGAR - Indivduo mui pobre, que os reveses da fortuna amansou e que pela arte das desgraas alheias 
e das prprias  compaixo se revelou sensvel. 
GLOSTER - Do imo peito agradeo. Que a bondade do cu e sua bno te acompanhem sempre e 
sempre. 
(Entra Osvaldo.) 
OSVALDO - Oh! Cabea posta a prmio! Encontro mui feliz! Essa cabea sem olhos s criou carne 
porque a minha fortuna prosperasse. Miservel traidor, concentra-te depressa, a espada que vai tirar-te a 
vida est sacada. 
GLOSTER - Ento pe fora em tua mo amiga. 
(Edgar se interpe.) 
OSVALDO - Por que te atreves, rstico atrevido, a amparar um traidor, publicamente como tal 
proclamado? Vai-te embora; do contrrio, a infeco da sorte dele passar para ti. Larga-lhe o brao! 
EDGAR - No largo ele, seu moo; no h perciso disso. 
OSVALDO - Solta-o, escravo! Do contrrio, morrers. 
EDGAR - Ide embora, seu moo; ide embora e deixai os pobre viver. Se as ameaas pudessem tirar-me a 
vida, esta teria sido encurtada de uma quinzena. No vos aproximeis do velho; ficai de longe,  o que eu 
digo, ou ento vamos tirar a prova para ver o que  mais duro, se vosso coco ou este meu cacete. Gosto 
de franqueza. 
OSVALDO - Sai da frente, monturo! 
EDGAR - Vou curar vossos dentes, seu moo. Vinde. Vossos botes no me metem medo. 
(Batem-se; Edgar o abate.) 
OSVALDO - Oh! matas-te-me, escravo! Coisa -toa, fica com minha bolsa. Se desejas prosperar, 
sepultura d a meu corpo e entrega as cartas que aqui trago a Edmundo, conde de Gloster. Morte 
intempestiva! 
(Morre.) 
EDGAR - Sei quem s, um velhaco diligente; to dedicado aos vcios da patroa quanto a maldade desejar 
pudera. 
GLOSTER - Como! Morreu? 
EDGAR - Pai, repousai; Sentai-vos. Revistemos-lhe os bolsos. Essas cartas de que falou sero talvez 
amigas. Morreu; s me aborrece no ter ele tido um outro carrasco. Mas vejamos. Permiti mole cera; e 
vs, costumes, no nos culpeis; porque saber possamos as idias de nossos inimigos os prprios coraes
lhes abriramos. Abrir cartas, assim  mais legtimo. "Lembrai-vos de nossos juramentos recprocos. 
Tendes muitas oportunidades de suprimi-lo; se vontade no vos faltar, oportunidade e lugar haveis de ter 
de sobra. Nada se ter feito se ele voltar como vencedor, porque ficarei como sua prisioneira e o leito 
dele como minha priso. Libertai-me, portanto, desse calor odioso, e, pelo vosso trabalho, ficai com o 
lugar dele. Vossa - esposa  o que eu desejara chamar-me - serva afetuosa Goneril. " Oh insondvel 
campo da perfdia feminina! Uma conjura contra a vida de um marido to virtuoso, para ser por meu 
mano substitudo! Vou enterrar-te aqui na areia mesmo, sacrilego correio de assassinos luxuriosos, a fim 
de em tempo certo ferir a vista do ameaado duque com este papel fatal. E est com sorte por eu poder 
contar-lhe de tua morte. 
GLOSTER - O rei ficou insano; quo teimoso meu vil juzo se mostra, permitindo-me ficar de p e 
intacto me deixando o sentido de minha dor imensa. Fora melhor ficar de todo louco. Assim se 
apartariam das tristezas os pensamentos, que as desgraas perdem a autoconscincia, quando sob o 
imprio de errneas fantasias. 
(Rudo de tambor ao longe.) 
EDGAR - Dai-me a mo. Ouo ao longe um tambor, se no me engano. Vamos, pai; vou confiar-vos a 
um amigo. 
(Saem.) 
Cena VII 
Uma tenda no acampamento francs. Entram Cordlia, Kent, um mdico e um gentil-homem. 
CORDLIA -  meu bondoso Kent, de que maneira posso viver e agir, para que a tua bondade 
recompense? Minha vida ser curta demais, sem que eu disponha de medida adequada. 
KENT - J me sobram, senhora, os vossos agradecimentos Vai de par meu relato com a mais simples 
verdade, sem acrscimos nem falhas. 
CORDLIA - Veste roupa melhor; essa roupagem faz lembrados momentos muito tristes. Por favor, 
troca-a. 
KENT - No, cara senhora; perdoai-me; mas prejudicara muito meus planos dar-me a conhecer agora. 
Como graa vos peo continuardes sem me reconhecer, at que o tempo e eu concordemos nisso. 
CORDLIA - Pois que seja, meu bondoso senhor. (Ao mdico.) Que faz o rei? 
O MDICO - Ainda dorme, senhora. 
CORDLIA -  divindades piedosas, deixai boa a grande brecha de sua natureza maltratada! Afinai os 
sentidos em desordem e dissonantes deste pai que em criana voltou a transformar-se. 
O MEDICO - Vossa Alteza permitir que o rei ns despertemos? J dormiu muito. 
CORDLIA - Segui nisso apenas vossos conhecimentos, procedendo como melhor julgardes. J o 
vestiram? 
(Entra Lear numa cadeira, carregado por criados.) 
GENTIL-HOMEM - J sim, senhora, pois no mais pesado do sono lhe trocamos toda a roupa.
O MDICO - Ficai junto, senhora, no momento de o despertarmos, pois no tenho dvidas quanto a suas 
melhoras. 
CORDLIA - Muito bem. 
(Msica.) 
O MDICO - Aproximai-vos, por favor. A msica, a, mais alto! 
CORDLIA -  meu querido pai! Em meus lbios suspende teus remdios, convalescena, e deixa que 
este beijo repare a imensa dor que minhas manas produziram em tua reverncia. 
KENT - Minha boa princesa e mui querida! 
CORDLIA - Mesmo que pai no fosse delas duas. estes cabelos brancos lhes teriam forado  
compaixo. Uma cabea como esta poderia ser exposta  fria das rajadas? defrontar-se com o trovo 
pavoroso e o mais terrvel ziguezaguear de temerosos raios? Ficar de guarda - pobre sentinela! - com este 
elmo to fino? O prprio co do meu imigro, embora me tivesse mordido, houvera, numa noite dessas, 
permanecido junto do meu fogo. E tu, meu pobre pai, foste forado a abrigar-te com porcos e mendigos 
numa pouca de palha embolorada! Ai, que dor. Maravilha  no haveres a um s tempo perdido a vida e 
o esprito. Vai acordar; falai-lhe. 
O MDICO - Vs, senhora; ser melhor. 
CORDLIA - Como se sente agora meu real senhor? E Vossa Majestade como passa? 
LEAR - Foi mal de vossa parte retirar-me do tmulo. s uma alma da bem-aventurana; eu, porm, me 
acho a uma roda de fogo sempre atado, que minhas prprias lgrimas escaldam como chumbo fundido. 
CORDLIA - Conheceis-me, senhor? 
LEAR - s um esprito; conheo-te. Desde quando morreste? 
CORDLIA - Divagando sempre por muito longe. 
O MDICO - Concedei-lhe mais algum tempo; despertou h pouco. 
LEAR - Onde estive? Onde estou?  dia claro? Oh! Procederam muito mal comigo; morrer de 
compaixo eu poderia, se visse algum tratado desse modo. No sei o que dizer; jurar no quero que 
estas mos sejam minhas. Mas vejamos: sinto esta alfinetada. Quem me dera saber quem sou, realmente. 
CORDLIA - Senhor, olhai para o meu lado, e as mos estendei sobre mim, para abenoar-me. No, 
meu senhor! No vos ponhais de joelhos! 
LEAR - Ah! No zombeis de mim,  o que vos peo. Sou um velho imprestvel e caduco, para cima de 
oitenta, nem uma hora mais nem menos. E, para ser sincero, receio ter o esprito avariado. Creio vos 
conhecer e, assim, a este homem; mas em dvida me acho, pois ignoro de todo onde me encontro, sem 
que possa lembrar-me destas vestes. De igual modo no sei onde passei a ltima noite. Oh! no riais de 
mim! Porque to certo como eu ser homem, quer afigurar-me que esta dama  Cordlia, minha filha. 
CORDLIA - Sou ela mesma, meu senhor; sou ela. 
LEAR - Tendes lgrimas midas? Realmente. No choreis,  o que peo. Se tiverdes veneno para
dar-me, hei de beb-lo. Sei que amor no me tendes. Vossas manas - tanto quanto me lembro - 
procederam comigo muito mal. Mas tendes causa; ao passo que nenhuma delas tinha. 
CORDLIA - Nenhuma causa! No; nenhuma causa! 
LEAR - Estou na Frana? 
KENT - Em vosso prprio reino, senhor. 
LEAR - No me enganeis. 
O MDICO - Ficai tranqila, boa senhora. J est morta nele, como estais vendo, a grande fria. Agora 
perigoso  faz-lo novamente subir ao longo do perdido tempo. Levai-o para dentro, sem cans-lo com 
perguntas, at que se refaa. 
CORDLIA - Querer Vossa Alteza andar um pouco? 
LEAR - Precisareis comigo ter pacincia. Esquecei e perdoai-me, por obsquio. Estou velho e caduco. 
(Saem Lear, Cordlia, o mdico e os criados.) 
GENTIL-HOMEM - Confirmou-se a notcia, senhor, de que o duque de Cornualha foi morto? 
KENT - Perfeitamente, senhor. 
GENTIL-HOMEM - Quem est  testa de seus homens? 
KENT - Ao que dizem, o filho bastardo de Gloster. 
GENTIL-HOMEM - Dizem que Edgar, seu filho exilado, est na Alemanha com o conde de Kent. 
KENT - Os boatos variam.  tempo de abrirmos os olhos; as foras do reino se aproximam com presteza. 
GENTIL-HOMEM - A deciso promete ser sangrenta. Passai bem, senhor. 
(Sai.) 
KENT - Ou boa ou m, a minha concluso os golpes de hoje  luz sair faro. 
(Sai.) 
ATO V 
Cena I 
O acampamento ingls, perto de Dover. Entram, com tambores e bandeiras desfraldadas, Edmundo, 
Regane, oficiais, soldados e outras pessoas. 
EDMUNDO - Ide saber do duque se seu ltimo projeto est de p, ou se por causas intercorrentes j 
mudou de plano. Instvel sempre se revela e cheio de queixas de si prprio. Sua firme deciso me trazei. 
REGANE - O mensageiro de minha mana se perdeu, decerto. 
EDMUNDO - E o que devemos recear, senhora. 
REGANE - J conheceis, meu caro lorde, quanto bem vos quero. Dizei-me francamente uma verdade s:
amais  mana? 
EDMUNDO - Sim, com amor honroso. 
REGANE - Mas acaso nunca o caminho achastes de meu mano, para o lugar proibido? 
EDMUNDO - Tal idia, senhora, vos ofende. 
REGANE - Tenho medo de com ela ligado vos achardes e de tal modo unido, que podeis ser tido como 
dela. 
EDMUNDO - Por minha honra, senhora, o afirmo. 
REGANE - Nunca o permitira. No vos mostreis to familiar com ela, caro senhor. 
EDMUNDO - Podeis ficar tranqila. Ela a vem, com o duque, seu marido. 
(Entram, com tambores e bandeiras desfraldadas, Albania, Goneril e soldados.) 
GONERIL ( parte) - Preferira perder esta batalha a perd-lo por causa desta mana. 
ALBNIA - Muito querida irm, feliz encontro. Senhor, soube que o rei se uniu  filha - com outros que 
o rigor de nosso jogo a protestar forou. - Onde no posso mostrar-me honesto, nunca sou valente. Esta 
campanha nos atinge apenas por haver Frana entrado em nossas terras, no por ter ajudado o rei e os 
outros que se levantam contra ns, receio, por motivos mui justos e de peso. 
EDMUNDO - Falastes nobremente. 
REGANE - Qual a causa de discutirmos isso? 
GONERIL - Dirijamos nossas foras conjuntas contra o imigo; so fora de propsito essas tricas 
particulares e questes domsticas. 
ALBNIA - Estudemos ento nossa estratgia com o alferes da guerra. 
EDMUNDO - A vossa prpria tenda irei procurar-vos neste instante. 
REGANE - Vireis conosco, irm? 
GONERIL - No. 
REGANE - Seria conveniente. Por obsquio, vinde tambm. 
GONERIL ( parte) - Oh oh! Compreendo o enigma. 
(Alto.) 
Irei. 
(Entra Edgar, disfarado.) 
EDGAR - Se em algum tempo Vossa Graa j conversou com um pobre to humilde, ouvi-me uma 
palavra. 
ALBNIA - J vos ouo. 
(Saem Edmundo, Regane, Goneril, oficiais, soldados e criados.)
EDGAR - Antes da pugna, lede esta missiva. No caso de vencerdes, que a trombeta chame seu portador. 
Embora aspecto to pobre eu apresente, tenho meios de fazer vir um campeo que pode provar tudo o 
que a est afirmado. Se vierdes a perder, vossos negcios mundanos chegaro tambm ao termo, 
terminando as intrigas. Que a Fortuna vos acompanhe. 
ALBNIA - Ficai at que eu leia a carta. 
EDGAR - Foi-me proibido fazer isso. Mas no tempo preciso, bastar que o arauto chame, para que eu me 
apresente. 
ALBNIA - Ento, adeus. Vou ler o teu papel. 
(Sai Edgar.) 
(Volta Edmundo.) 
EDMUNDO - O inimigo est  vista. Ponde em linha vossos soldados. Eis aqui o cmputo de seu poder 
exato e de suas foras, segundo exploraes bem conduzidas. Mas o momento vos obriga  pressa. 
ALBNIA - Saberemos saudar o tempo certo. 
(Sai.) 
EDMUNDO - Jurei amor s duas; uma da outra desconfia, tal como da serpente, quem picado j foi. 
Qual me reservo? Ambas? Uma? Nenhuma? Com nenhuma me alegrarei, ficando vivas ambas. Ficar 
com a viva  exasperar a outra, Goneril;  deix-la como louca, no podendo eu ganhar minha partida, 
se seu marido continuar com vida. Aproveitemo-nos de seu prestgio para a batalha em curso. Uma vez 
ganha, ela, ento, que de grado o despachara, os recursos mais aptos excogite de logo liquid-lo. No que 
tinge ao plano dele de a Cordlia e Lear conceder o perdo, ganha a batalha e eles em nossa mo, jamais 
tal graa chegar a alcanar. Impe-me o posto pouco falar e trabalhar com gosto. 
(Sai.) 
Cena II 
Um campo entre os dois acampamentos. Alarma. Com tambores e estandartes desfraldados, entram 
Lear, Cordlia e suas tropas. Saem. Entram Edgar e Gloster. 
EDGAR - Acolhei-vos aqui, pai, a esta sombra de rvore como a um hospedeiro grato. Rezai para que 
vena a boa causa. Se algum dia eu voltar, ser para trazer-vos doce alvio. 
GLOSTER - Possa a Graa, senhor, acompanhar-vos. 
(Sai Edgar.) 
(Alarma. Depois, retirada. Volta Edgar.) 
EDGAR - Fujamos, velho! Dai-me a mo. Fujamos! Perdeu rei Lear: presos, ele e a filha. Dai-me a mo; 
vamos logo. 
GLOSTER - No, senhor; no darei nem mais um passo. Pode-se apodrecer em qualquer parte. 
EDGAR - Como! De novo pensamentos negros Precisamos mostrar-nos conformados com a nossa vinda 
ao mundo e ao nos partirmos. Estarmos preparados  o que importa. Vamos daqui. 
GLOSTER - Tudo isso  muito certo.
(Saem.) 
Cena III 
O acampamento ingls, perto de Dover. Entra Edmundo, como vencedor, com tambores e bandeiras; 
Lear e Cordlia, prisioneiros; oficiais, soldados, etc. 
EDMUNDO - Alguns oficiais os levem logo. Que fiquem bem guardados, at que a alta vontade se 
conhea das pessoas que tero de julg-los. 
CORDLIA - Os primeiros no somos a ficar sobre braseiros com boas intenes. Rei oprimido, por ti, 
somente, falta-me o sentido, que eu, por mim, poderia, carrancuda, enfrentar as carrancas da Fortuna. 
Tais irms e tais filhas no veremos? 
LEAR - No, no, no, no! Levai-nos para o crcere. Ns dois, sozinhos, cantaremos como pssaros na 
gaiola. No momento de a beno me pedires, eu me ajoelho e te imploro perdo. Dessa maneira 
viveremos, dizendo nossas preces, cantando e velhos contos enarrando, rindo das borboletas variegadas e 
ouvindo os pobres diabos discorrerem sobre os boatos da corte, aos quais, decerto, nos juntaremos para 
dar palpite sobre quem perde ou ganha, quem se encontra no alto da escada ou em baixo, discorrendo 
sobre os altos mistrios do universo como se espies de Deus, acaso, fssemos. Gastaremos, assim, no 
duro crcere, os partidos e as lutas dos grados que com a lua sobem sempre e descem. 
EDMUNDO - Levai-os! 
LEAR - Sobre um sacrifcio destes, minha boa Cordlia, os prprios deuses jogam incenso. Tenho-te 
bem presa? Quem quiser separar-nos h de um facho trazer do cu, para tocar-nos, como a raposas. 
Enxuga, enxuga os olhos. A carne e a pele a peste h de comer-lhes antes de que eles a chorar nos 
forcem. Primeiro morrero de fome. Vamos! 
(Saem Lear e Cordlia, escoltados.) 
EDMUNDO - Capito, vem aqui. Toma este escrito. Ouve-me atento. Segue-os at o crcere. J te 
beneficiei de um grau; no caso de cumprires esta ordem, o caminho ters franqueado da mais nobre sorte. 
Reflete no seguinte: os homens mudam conforme as pocas. Uma alma terna no se casa com a espada. 
Este mandato no permite objees: ou vais cumpri-lo, ou procura subir por outros meios. 
OFICIAL - Senhor, hei de cumpri-lo. 
EDMUNDO - Cuida disso, e, feito isso, feliz te considera. Ouve-me bem: sem perda de um momento, e 
cumpre as minhas instrues  risca. 
OFICIAL - Puxar carro no sei, nem comer feno; mas se  trabalho de homem, j est feito. 
(Sai.) 
(Fanfarra. Entram Albnia, Goneril, Regane, oficiais e criados.) 
ALBNIA - Senhor, mostrastes vossa altiva raa e bem guiado fostes pela sorte. Tendes os prisioneiros 
que adversrios nossos foram na luta deste dia. De vs os requeremos, para dar-lhes tratamento conforme 
o prprio mrito o exigir e, assim, nossa segurana. 
EDMUNDO - Pareceu-me, senhor, mais conveniente mandar o velho e desgraado rei para alguma 
priso, sob guarda certa, pois de grande feitio se revela sua diade e, ainda mais, o prprio ttulo para
arrastar o corao do vulgo, voltar fazendo contra nossos olhos as lanas que ns mesmos alistamos. 
Pelas mesmas razes foi a rainha juntamente com ele. Ambos se encontram prontos, amanh cedo ou 
mais de espao, para comparecer onde quiserdes formar o tribunal. De suor e sangue todo coberto ainda 
estou; o amigo perdeu o amigo e, no calor, as lutas mais altas so amaldioadas pelos que o corte delas 
sentem. O problema de Cordlia e do pai requer um stio mais conveniente. 
ALBNIA - No vos desagrade, senhor, mas nesta guerra considero-vos sdito, no irmo. 
REGANE - Irmo, lhe digo, o que me apraz dele fazer. Parece-me que devia ter sido consultado nosso 
prazer antes de tal discurso. Foi nosso general, representante de mim prpria e de minha dignidade, 
intimidade que bem pode a fronte levantar para vosso irmo chamar-se. 
GONERIL - Por que tanto calor? Seu prprio mrito o exalta mais que vossas distines. 
REGANE - Com meus direitos, minha investidura, aos melhores se iguala. 
GONERIL - Atingiria, decerto, o pice, vindo a desposar-vos. 
REGANE - Por vezes os trocistas se revelam verdadeiros profetas. 
GONERIL - Olar! O olho que vos disse isso estava vesgo. 
REGANE - No estou bem, senhora; no fora isso, vos daria a resposta merecida. General, toma conta 
dos meus homens, dos prisioneiros, meus haveres todos. Dispe deles, de mim; teu  este burgo. Seja o 
universo testemunha em como te creio agora meu senhor e mestre. 
GONERIL - Pensais que j sois dele? 
ALBNIA - No depende de vs a permisso. 
EDMUNDO - Oh! nem de ti! 
ALBNIA - Depende, sim, tipo de meio sangue. 
REGANE - Faze soar o tambor, e que este prove que meu ttulo  teu. 
ALBNIA - Um momentinho; a razo escutai: Edmundo, prendo-te por traio capital, e juntamente 
contigo esta serpente cheia de ouro, 
(Apontando para Goneril.) 
porque, formosa irm, me oponho a vossas pretenses, no interesse, to-somente, de minha esposa, que 
ligada se acha a este senhor por um formal contrato. Eu, seu marido, oponho-me, portanto, a esses vossos 
proclamas. Se quiserdes casar, fazei-me a corte, que esta dama j est comprometida. 
GONERIL - Que comdia! 
ALBNIA - Gloster, ests armado. Que a trombeta d logo o toque. Caso ningum venha para ao rosto 
lanar-te as tuas prprias traies odiosas, mltiplas e claras, aqui est meu penhor. 
(Atira a luva.) 
Nessa cabea demonstrarei antes de novamente provar po, que s tudo isso que ora afirmo. 
REGANE - Oh! doente, muito doente!
GONERIL ( parte) - De outro modo no voltara a confiar na medicina. 
EDMUNDO - Eis meu penhor, tambm. 
(Joga a luva.) 
Em todo o mundo quem quer que de traidor ouse chamar-me, mente como um vilo. Soe a trombeta! 
Contra quem se atrever a apresentar-se, contra ele, contra vs, contra quem seja, firme defenderei a honra 
e a lealdade. 
ALBNIA - Eh! Um arauto! 
EDMUNDO - Ol! O arauto! O arauto! 
ALBNIA - Confia apenas na coragem prpria; pois teus soldados, alistados todos em meu nome, j 
foram licenciados. 
REGANE - Meus incmodos crescem! 
ALBNIA - No se encontra passando bem; levai-a para a tenda. 
(Sai Regane, amparada.) 
Aproxima-te, arauto. 
(Entra um arauto.) Que a trombeta soe logo e, depois, proclama isto. 
OFICIAL - Soe a trombeta! 
(Ouve-se um toque de trombeta.) 
ARAUTO - "Se houver nas fileiras do exrcito qualquer homem de qualidade ou posio que queira 
sustentar contra Edmundo, suposto conde de Gloster, que ele  muitas vezes traidor, apresente-se ao 
terceiro toque da trombeta. Edmundo est decidido a defender-se." 
EDMUNDO - Tocai! 
(Primeiro toque.) 
ARAUTO - Outra vez! 
(Segundo toque.) 
ARAUTO - Outra vez! 
(Terceiro toque.) 
(Uma trombeta responde dentro.) 
(Entra Edgar, armado, precedido de um trombeteiro.) 
ALBNIA - Interrogai-o sobre seus intuitos e porque veio ao toque da trombeta. 
ARAUTO - Quem sois vs? Vosso nome? Vosso estado? Por que viestes aqui a esta chamada? 
EDGAR - Meu nome se perdeu, ficai sabendo. Roeu-o o dente da traio, deixando-o lacerado de todo. 
Mas sou nobre tanto quanto o adversrio que procuro. 
ALBNIA - Quem  esse adversrio? 
EDGAR - Quem responde pelo conde de Gloster, por Edmundo? 
EDMUNDO - Ele prprio. Que tens para dizer-lhe?
EDGAR - Saca da espada, para que, no caso de um nobre corao vir meu discurso magoar, justia 
obtenhas por teu brao. Eis aqui a minha, como privilgio de minha qualidade, juramentos e honrarias, 
que aqui venho afirmar-te, apesar de tua fora, mocidade, posio e alto estado; no obstante tua sorte 
forjada h pouco tempo e a espada vitoriosa, tua grandeza, valentia e coragem, que s traidor, falso aos 
deuses, ao prprio irmo e ao pai, conspirador contra este ilustre prncipe, e que do ponto extremo da 
cabea ao mais baixo do p que pisa a poeira, s um traidor manchado como o sapo. Se "No" disseres, 
esta espada, o brao, minha melhor coragem vo provar-te no corao que mentes. 
EDMUNDO - A prudncia me mandaria perguntar teu nome. Mas visto teres um exterior to belo, to 
marcial, e expressar os pensamentos tua lngua com nobreza, com desprezo ponho de lado todas as 
delongas que as prprias regras da cavalaria sem desdoiro nenhum me asseguraram. Essas traies, em 
tua fronte as jogo, e o corao aperto-te na prpria calnia odiosa como o duro inferno. De leve, 
to-somente, me tocaram. Por isso, minha espada vai mostrar-lhes neste instante o caminho para o ponto 
em que repouso iro achar eterno. Falai, trombetas! 
(Alarma; batem-se; Edmundo cai.) 
ALBNIA - Poupai-lhe a vida! 
GONERIL -  uma cilada, Gloster! Segundo as leis das armas, no devias aceitar luta com um 
desconhecido. Vencido no caste; foste vtima do embuste e da traio. 
ALBNIA - Fechai a boca, senhora; do contrrio, eu mesmo a tapo com esta carta. Olha para este lado, 
senhor, pior do que os mais feios nomes; l teu prprio delito. No, senhora! No a rasgueis! Vejo que a 
conheceis. 
(D a carta a Edmundo.) 
GONERIL - E se fosse esse o caso? A lei  minha, no tua. Quem me chamar a juzo? 
(Sai.) 
ALBNIA - Oh! Monstruoso! Conheces essa carta? 
EDMUNDO - Oh! no me pergunteis o que eu conheo. 
ALBNIA - Ide atrs dela; est desesperada. Vigiai-a bem. 
(Sai o oficial.) 
EDMUNDO - Sim, perpetrei os crimes de que ora me acusais, e muitas coisas, ainda, muitas mais. Aos 
poucos h de revel-las o tempo. Mas tudo isso j passou, tal como eu. Mas quem s tu, que tal vantagem 
sobre mim tiveste? Se fores nobre, o meu perdo concedo-te. 
EDGAR - Ento reciproquemos caridade. No  menor que o teu meu sangue, Edmundo. Se maior for, 
maior ser tua culpa com relao a mim. Chamo-me Edgar; sou filho de teu pai. Justos os deuses sempre 
so, e instrumentos de castigo fazem de nossos vcios agradveis. Custou-lhe os olhos o lugar vicioso 
onde foste gerado. 
EDMUNDO - Com acerto falaste;  verdadeiro o que disseste. Estou aqui: ficou completo o crculo. 
ALBNIA - Bem vi que tua forma revelava uma nobreza real. Quero abraar-te. Que a dor me parta o 
corao, se acaso te tive dio, ou a teu pai, em qualquer tempo.
EDGAR - Sei disso, digno prncipe. 
ALBNIA - Em que ponto vos escondestes? Como a saber viestes das misrias de vosso pobre pai? 
EDGAR - Tratando delas, meu senhor, apenas. Ouvi uma histria curta, e logo que ela tiver sido contada, 
oh! que me estale de dor o corao. Da sanguinria proclamao porque escapar pudesse, que to de 
perto os passos me seguia -  doura da vida, que nos fazes preferir morrer de hora em hora as dores da 
morte a de uma vez morrer de todo! - precisei disfarar-me com os andrajos de um demente, assumindo 
uma aparncia que at mesmo os cachorros repelia. Com essas vestes fui achar meu pai, cujos anis 
sangrentos as preciosas pedras tinham perdido. Transformei-me em seu guia, pedi para ele esmola, por 
toda parte o conduzi, salvei-o do desespero, sem que nunca - oh falta! - lhe houvesse revelado quem eu 
era, seno h cerca de meia hora, quando j me encontrava armado. No me achando seguro de vencer, 
pedi-lhe a bno e minha peregrinao contei-lhe, do comeo at ao fim. Mas seu rachado corao, ah! 
muito fraco porque a luta pudesse suportar dos dois extremos da paixo, alegria e sofrimento, sorrindo 
arrebentou. 
EDMUNDO - Vosso discurso me comoveu, sendo possvel, mesmo, que produza algum bem. Mas 
prossegui; parece que ainda no contastes tudo. 
ALBNIA - Se houver outras misrias, ocultai-as, porque no ponto de chorar me encontro, ouvindo o 
que contastes. 
EDGAR - Julgaria quem no amasse a dor que esse relato j representa tudo. Porm se outro viesse 
juntar-se ainda a tantos males, ampliando-os muito e muito, ultrapassara decerto o ponto extremo. 
Quando a clamar de dor eu me encontrava, chegou um homem que me vira em minha nfima condio e 
se esquivara de minha companhia repelente, mas que, ao notar, ento, quem era o grande sofredor, em 
seus braos vigorosos me apertou o pescoo, urrou a ponto de arrebentar o cu, lanou-se em cima do 
corpo de meu pai e a mais dorida histria me contou sobre ele e Lear, que jamais percebeu o ouvido 
humano. Ao relat-la, a dor o dominava, comeando a estalar-lhe as prprias cordas da vida. Mas nessa 
hora duas vezes soou a trombeta e exnime o deixei. 
ALBNIA - Mas quem  ele? 
EDGAR - Kent, senhor; o mesmo Kent exilado, o qual sob um disfarce seguia o rei seu inimigo, tendo 
lhe prestado servios nada prprios, ai! nem mesmo de escravos. 
(Entra um gentil-homem com uma faca ensanguentada.) 
GENTIL-HOMEM - Aqui, socorro! Socorro, aqui! 
EDGAR - Socorro de que jeito? 
ALBNIA - Fala, homem. 
EDGAR - E essa faca ensangentada? 
GENTIL-HOMEM - Est quente; fumega; neste instante saiu do corao dela... Oh! Morreu! 
ALBNIA - Quem morreu, homem? Fala. 
GENTIL-HOMEM - Vossa esposa, senhor, vossa consorte, e a irm por ela envenenada; confessou o 
fato.
EDMUNDO - Fiquei noivo das duas; na mesma hora casamo-nos os trs. 
EDGAR - Kent a vem vindo. 
ALBNIA - Trazei os corpos, mortos ou com vida. Este juzo dos cus, que nos abala, no nos deixa, 
por isso, enternecido. 
(Sai o gentil-homem.) 
(Entra Kent.) 
Oh!  ele mesmo? No permite o tempo saud-lo como a cortesia manda. 
KENT - S vim aqui para dizer boa noite ao meu rei e senhor. No se acha aqui? 
ALBNIA - Oh! Esquecemos do que mais importa! Dize-nos, Edmundo, onde est o rei? Onde ficou 
Cordlia? Kent, vs isto? 
(So trazidos os corpos de Goneril e Regane.) 
KENT - Oh! Como aconteceu? 
EDMUNDO - No entanto, Edmundo foi amado! Uma deu veneno  outra, por minha causa, e se matou 
depois. 
ALBNIA - Justamente; cobri-lhes ora o rosto. 
EDMUNDO - A vida j me foge, mas quisera fazer ainda algum bem, embora contra minha prpria 
feio. Mandai depressa, bem depressa, ao castelo. Meu escrito ameaa a vida de Cordlia e Lear. No 
percais tempo. 
ALBNIA - Corre! Corre! Corre! EDGAR - Para onde, meu senhor? Qual a pessoa que est disso 
incumbida?  necessrio enviares um penhor como contra-ordem. 
EDMUNDO - Foi bem pensado; toma minha espada e a entrega ao capito. 
ALBNIA -Por tua vida, no percas tempo. 
(Sai Edgar.) 
EDMUNDO - A comisso tem ele de tua esposa morta e minha, para na priso a Cordlia dar a morte, 
atribuindo, depois, ao desespero dela mesma sua prpria destruio. 
ALBNIA - Que os deuses a protejam! Retirai-o. 
(Entram Lear, com Cordlia nos braos, morta; Edgar, oficiais e outras pessoas.) 
LEAR - Uivai! Uivai! Ulvai! Sois empedrados! Se vossas lnguas e olhos eu tivesse, usara-os de tal 
modo, que faria rachar a abbada celeste. Foi-se para sempre! Conheo muito bem quando algum est 
morto ou quando vive. Morta est como terra. Ide buscar-me um espelho; no caso de seu hlito embaar 
ou cobrir a superfcie, ento  que ela ainda est com vida. 
KENT - Este  o fim prometido? 
EDGAR - Ou bem a imagem de tanto horror? 
ALBNIA - Cai de uma vez e acaba.
LEAR - A pluma est a mexer! Ela est viva! Oh! se for assim mesmo,  uma ventura que recompensa 
todos os pesares por que tenho passado. 
KENT (ajoelhando-se) - Oh meu bom mestre! 
LEAR - Sai, por favor! 
EDGAR -  Kent, o vosso amigo. 
LEAR - A peste sobre vs, traidores todos! Sois todos assassinos! Poderia t-la salvo, mas foi-se para 
sempre.  Cordlia! Cordlia! Espera um pouco! Ah! Que disseste? A voz tinha sempre branda, 
agradvel e baixa, predicado na mulher de valor inestimvel. Matei o escravo, quando te enforcava. 
OFICIAL -  certo, meu senhor; matou-o, de fato. 
LEAR - No  verdade, amigo? J houve tempo em que com minha espada de bom gume os fazia danar. 
Ora estou velho e estes trabalhos todos me deprimem. Quem Sois? No vejo bem. Vou j dizer-vos. 
KENT - Se blasona a fortuna de a dois seres ao mesmo tempo haver odiado e amado, a um deles aqui 
vemos. 
LEAR - Tenho a vista um tanto baa. Acaso no sois Kent? 
KENT - O mesmo; Kent, o vosso servidor. Onde se encontra vosso criado Caius? 
LEAR - Um bom sujeito, posso asseverar-vos; sabe bater nos outros com aprumo. Est morto e bem 
podre. 
KENT - No, bondoso senhor; sou ele mesmo... 
LEAR - Verei isso neste momento. 
KENT - que desde o comeo de vossos infortnios e declnio vos tem seguido os lastimosos passos. 
LEAR - Sois bem-vindo. 
KENT - Ningum  aqui bem-vindo. Tudo  sem alegria, escuro e morto. Vossas filhas mais velhas se 
mataram, morrendo em desespero. 
LEAR - Oh! Acredito-o. 
ALBNIA - J no sabe o que diz; absurdo fora tentarmos conversar com ele. 
KENT -  intil. 
(Entra um oficial.) 
OFICIAL - Edmundo faleceu, milorde. 
ALBNIA - Nada significa isso agora. Vs, senhores e meus caros amigos, comunico-vos minha 
inteno, que  dar todo o conforto que com esta grande runa se coadune. Enquanto a ns, durante a vida 
desta cndida majestade, conferimos-lhe todo o nosso poder. (A Kent e Edgar). A vs, as vossas 
honrarias, que vossos grandes prstimos mais do que mereceram. Os amigos recebero a paga da virtude 
provando todos nossos inimigos da copa do castigo. Oh! Vede! vede! LEAR - Foi enforcada minha
bonequinha! No, no! Vida nenhuma! Por que causa ter vida um cavalo, um co, um rato, e tu, flego 
algum? No voltars, oh! nunca, nunca, nunca, nunca, nunca! Por obsquio, soltai-me este boto. 
Obrigado, senhor. Oh! vedes isto? Olhai para ela! Vede os lbios dela! Olhai aqui! Olhai aqui! 
(Morre.) 
EDGAR - Desmaia! Senhor! Senhor! 
KENT - Estala, corao! Estala, peo-te. 
EDGAR - Senhor, olhai-me! 
KENT - No lhe molesteis a alma. Que se fine. dio lhe tem quem desejar deit-lo por mais tempo no 
banco de tormentos deste mundo to duro. 
EDGAR - J no vive, realmente. 
KENT - O que  admirvel  que tenha agentado a esse ponto. Sua vida j era usurpada. 
ALBNIA - O corpo removei. Luto geral vai ser a nossa ocupao precpua. 
(A Kent e Edgar.) 
Amigos d'alma, governai o Estado, que to ferido se acha e malfadado. 
KENT - Para uma viagem longa vou partir. O mestre  que me chama; tenho de ir. 
ALBNIA - Do tempo triste somos os arrimos; digamos to-somente o que sentimos. Muito o velho 
sofreu; mais desgraada nossa velhice no ser em nada. 
(Saem ao som de uma marcha fnebre.)
